O segundo filme para os cinemas de Downton Abbey é bem mais interessante e memorável que o primeiro, apesar dos apesares. Soube da existência dessa sequência só quando foi lançada no cinema de rua que frequento e assisti, sem saber o que esperar, dois dias depois. Felizmente, a saga da família de nobres vivendo seus dramas e romances no século XX, no qual a aristocracia é cada vez menos relevante, nunca se levou a sério demais, o que impede que a proposta de uma sequência que se passa já nos anos 30 seja algo tematicamente bizarro ou "desnecessário", como se diz por aí. O apelo da série de TV sempre esteve no carisma das personagens, na elegância de época, no melodrama, no humor classudo baseado no choque de costumes. Tudo isso está presente, e um pouco mais, apesar da bagunça. Antes de esmiuçar, já digo que quem curte esse estilo novelão da série vai curtir o filme.
O fato de ser um braço da série ainda traz problemas para o roteiro, afinal a tarefa aqui é continuar com naturalidade uma história que já foi finalizada diversas vezes e ainda deixar pontas soltas o suficiente para possíveis filmes/episódios futuros. Há, portanto, limitações desde o começo. Há ainda o ímpeto de presentear a maioria dos personagens com um sub-enredo próprio. Às vezes vale a pena, às vezes não. O subplot de Daisy e seu marido, por exemplo, não dá em nada e não é interessante ou divertido por si só. Alguns personagens sofrem ainda mais com essa abordagem: Carson, o mordomo afastado, é reduzido a uma caricatura fora de tom de si mesmo, momentos supostamente engraçadinhos ficam bem constrangedores e, no fim do filme, até de mal gosto. No fim, Carson não termina nem onde começou no filme - ele termina voltando ao seu antigo posto de mordomo, que perdeu na série por problemas de saúde. Esquisito.
Por outro lado, há uma leveza muito interessante e refrescante aqui. Inclusive, arrisco dizer que esse filme faz um uso do humor bem mais exagerado e despreocupado do que o resto de Downton Abbey. Não há também a pretensão de ser um grand finale, apesar das importantes despedidas de alguns dos personagens mais interessantes da série. É como se fosse uma aventura extra, uns três episódios colocados juntos para a tela do cinema. Digo isso no melhor sentido possível, é um filme despretensioso e leve. O roteiro aqui é construído da mesma maneira que os episódios da série de TV, nos quais há mais tempo para desenvolver os dramas dos andares superiores do grande castelo de Downton e as querelas dos andares inferiores, onde vivem e trabalham as camareiras, lacaios, cozinheiras, valetes. Muitas vezes os enredos mal se cruzam, e tudo bem. Uma conexão temática (a nova era) é mais interessante do que uma conexão forçada no próprio enredo, principalmente um com tantos personagens.
Falando em temas, o filme também lida com a questão "modernidade x tradição" da maneira mais criativa e lúdica desde a primeira temporada da série. É o que coloca esse filme acima do anterior e também seu aspecto mais inusitado de todos: a história se passa no início da era dos talkies, que começou com The Jazz Singer, e isso é integrado no principal e mais divertido dos enredos. Há um filme sendo rodado em Downton (!), e a produção é interrompida por se tratar um filme mudo, que não deve fazer dinheiro por ser tecnologicamente obsoleto. A adaptação do filme para incluir diálogos (o que ocorreu bastante nessa época da história do cinema) conta com a ajuda de Mary, a protagonista da família, na dublagem de uma atriz extremamente esnobe. A integração da própria história do cinema no filme é inesperada, às vezes até didática e explicativa, além de ser um jeito quase genial de tratar e sintetizar a "nova era" que chega para os habitantes de Downton - a era do cinema falado. A série durou tanto tempo que seu tema original parece se perder, ficar em segundo plano ou totalmente banalizado. Aqui, ao contrário, a passagem do tempo e mudança dos hábitos e costumes estão bem evidentes. Esse novo capítulo é, portanto, muito bem-vindo. Que venham os próximos, por mais estranhos que possam parecer.
