Plano 1
Notas escritas após uma sessão na Cinemateca.
"I'm a whore! Where am I? I'm afraid!" - Laura Dern como Nikki Grace/Susan Blue, gritando em um dos melhores momentos do filme.
Ninguém filma Laura Dern como David Lynch. Ela já foi o símbolo máximo do amor e da ingenuidade em Veludo Azul (1987) e a encarnação da liberdade sexual e da rebeldia em Coração Selvagem (1990).
Em Império dos Sonhos, o épico mais ambicioso de Lynch em termos narrativos e ao mesmo tempo o mais singular em termos de atmosfera (é indissociável estética e tematicamente da câmera utilizada em sua gravação, uma pequena maquininha digital), Laura brilha como duas personagens cada vez mais caóticas e selvagens. Ou três. Ou até mais.
Lynch utiliza closes bizarros, sombras fortes e luzes piscantes, deformando ao máximo o rosto da atriz, que nesse filme mostra todo seu alcance, e não teria como ser diferente.
Império dos Sonhos é uma lenda sobre o lado sombrio de Hollywood (a cena das prostitutas na calçada das estrelas da fama é bem didática nesse sentido, e o enredo passado na Polônia atinge níveis mais sombrios do que Cidade dos Sonhos [2001] em relação a essa mesma temática). É também um experimento extremamente ambicioso (mesmo sem levar em conta a caótica história da produção) em realidades e tempos alternativos. Como Laura Dern diz no meio do filme, numa das poucas pistas que temos para solucionar o que está acontecendo, "Tem algo a ver com a narração do tempo". Após a realidade da atriz Nikki Grace ser colocada em questão (o filme que ela faz e sua vida pessoal parecem indissociáveis), o filme entra numa espiral de realidades e estéticas cada vez mais abstrata, onde, como em Cidade dos Sonhos, recebemos algumas poucas pistas em forma de repetição (de falas e de objetos ao longo do filme) que nos ajudam a entender o que se passa com essas mulheres em perigo (a atriz ou as prostitutas na casa, na Polônia ou em Los Angeles), mas o choque entre tempos e lugares impera - em um verdadeiro pesadelo muito bem planejado.
Lynch quase nunca fala sobre a estrutura narrativa de seus roteiros, focando mais em ideias imagéticas durante suas entrevistas - assim, quando seu cinema é mencionado, o caráter atmosférico e onírico é quase sempre o aspecto mais lembrado. Mas seu talento para contar uma boa história já está bem claro em Veludo Azul (primeiro filme no qual os temas que perdurariam por toda a obra do cineasta são apresentados claramente), onde o gênero do suspense é forte e as informações do enredo são dispostas cuidadosamente ao longo do filme em um desenrolar de mistério dos mais divertidos, não à toa Hitchcock é um dos poucos cineastas que Lynch costuma mencionar como influência, além de Fellini. Em Estrada Perdida (1997) e principalmente Cidade dos Sonhos (nesse último, só descobrimos o que possivelmente aconteceu após o filme acabar), realidades dissociativas atingem um novo patamar no cinema. Já em Império, a estética (feia, digital, imediata, assustadora) é perfeitamente incorporada e unida ao roteiro, cujo caos é criado justamente pelo controle que Lynch demonstra na transição entre uma cena e outra, na recapitulação de elementos passados e na quase indecifrável (mas não sem sentido) narrativa como um todo (nessa borra de realidade e tempo inédita, é impossível negar que há algo bem sólido por trás de cada camada).
A cena do "ponto sem retorno" na realidade de Império é a que mostra Laura Dern observando a si mesma e a Justin Theroux, Jeremy Irons e Harry Dean Stanton em ensaio para o filme assombrado - cena que já assistimos anteriormente, mas do ponto de vista desses outros personagens. Ela entra por uma porta cenográfica (na cena equivalente, pelo ponto de vista de Theroux, o set é somente isso - uma porta e uma parede cenográficas) e de repente está numa casa real em outro tempo e espaço. Uma cena única, uma das melhores e mais tensas da filmografia de Lynch.
Já prenunciando um dos momentos mais belos de Twin Peaks - O Retorno, o final feliz de Império dos Sonhos, com camadas e mais camadas de vídeo de Laura Dern encontrando Heather, a garota perdida dos créditos, conclui muito bem e ainda resume visualmente a abordagem estética e narrativa do filme (fotos acima).
Além de tudo isso, há também espaço para leveza (Harry Dean Stanton e sua mendigagem) e boas músicas. Uma experiência vibrante.


