sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Trap (2024, dir. M. Night Shyamalan)

Se em Knock at the Cabin o plano/contraplano entre a criança e Dave Bautista traz uma isonomia sincera entre o grotesco e belo, entre o perigo e a inocência (e, ao final do filme, como em Signs, o mundo termina por não acabar, a fé é resgatada), os planos/contraplanos entre Cooper e os diversos personagens que passam por seu caminho em Trap denotam quase o contrário: a separação completa entre o universo deles, a impossibilidade de qualquer conexão sincera e de isonomia. Cooper, com os sorrisos mais grotescos e assustadores possíveis (Josh Hartnett entrega a performance do ano), está pragmaticamente navegando pelo seu ambiente, pelo social, manipulando a todos (funcionários, polícia, conhecidas, sua própria filha) e jogando seu jogo para sair da arena intacto. Esses dois usos completamente diferentes no resultado do mesmo recurso cinematográfico (clássico e abusado, inclusive, e terrivelmente eficiente nos dois casos) demonstram que Shyamalan continua sendo um dos diretores mais interessantes do cinema de Hollywood contemporâneo. Apesar de ser um procedimento simples, o resultado é sempre estranho, desequilibrado, carregado de significado e de sentimento. A cosmovisão de Shyamalan, incompatível em absoluto com o resto das produções de Hollywood, se faz presente em cada uma dessas pequenas cenas de plano/contraplano. Sua abordagem formal em Trap é sim Hitchcockiana (Shyamalan não faz cavalos de troia), mas é também algo a mais. É uma questão quase espiritual. Poucos cineastas desse calibre conseguem, hoje, deixar o plano/contraplano tão interessante. 

Shyamalan sempre faz um diagnóstico do mal estar do século da maneira mais criativa e, na mesma medida, cruel e carregada de fé na sobrevivência da humanidade. Também sempre adere ao prazer da cena, à tensão do gênero, a planos extremamente narrativos e econômicos, ainda que estranhos (Old também é um bom exemplo onde o clássico encontra o desconhecido, o esquisito na composição dos planos). O que faz de Trap um pouco melhor que Old, porém, é que as imagens, ainda que carregadas de significado, chamam menos atenção para si mesmas e para a própria tese principal do filme. Há menos metáfora, as coisas acontecem e são filmadas em função da aventura do protagonista. Os temas estão melhor integrados à narrativa, à decupagem, aos corpos dos atores. Os temas sangram pelas frestas do filme, não se impõem pelo simbólico. Trap aborda, sim, as performances sociais o tempo inteiro, mas tudo isso é orgânico, tátil, e funciona também em função do tempo do filme - os temas vão se desdobrando, crescendo. 

Nisso lembra The Happening, quando a paranoia gerada nas pessoas por conta do fenômeno misterioso acaba assassinando, abruptamente, dois garotos. Naquele momento, o filme vai além dos temas estabelecidos até ali, escolhe mais alvos, diz ainda mais sobre o mundo do que tudo que a premissa fantasmagórica que engoliu todos os personagens já disse. Trap faz a mesma coisa, mas o desenrolar dos acontecimentos e dos temas é mais imprevisível e, ainda que lide com um universo mais pé no chão do que Old ou The Happening, onde as regras da ficção parecem, a primeira vista, mais similares às regras do "mundo real", o absurdo é (por isso mesmo) ainda mais acentuado, e é nesse absurdo que Shyamalan opera melhor. É nesse absurdo que tudo o que o filme apresenta sobre o mundo é mais concreto e mais real. É nesse absurdo que coexistem os aspectos mais divertidos e mais densos, dolorosos do filme. É nesse absurdo que Shyamalan consegue surpreender com as mudanças nas relações de poder entre os personagens, complicar o jogo e ainda dar vazão à brincadeiras formais, mexer e remexer nas expectativas dos espectadores - em arroubos aí sim Hitchcockianos.

Quando o protagonista consegue, com sucesso impressionante (afinal, tudo nele gira em torno de alcançar seu objetivo), acessar os lugares inacessíveis e sair da arena, o mundo real está aguardando. O ambiente da arena, apesar de ser o próprio desafio a ser superado pelo protagonista (que precisa fugir dali), era pelo menos um lugar controlado, controlável. No mundo real, manter a performance e a pose até o fim é impossível, principalmente com as imprevisíveis performances do outro. É nesses últimos atos, longe da arena e principalmente no caos do ambiente doméstico, que Shyamalan dobra a aposta na força da performance e relativiza até as regras morais do jogo, passando o bastão de protagonista para pelo menos três personagens diferentes - cada um com seu objetivo e tomando o filme (e a empatia do espectador) para si, de assalto. Ora estamos com o serial killer, ora com Lady Raven, ora para sua esposa, torcendo para todos ao mesmo tempo. O pragmatismo e os falsos sorrisos no ambiente controlado dão espaço ao indefinido da emoção e da ação impulsiva.

Reiterando o que já foi dito por todos, as cenas da arena são dirigidas impecavelmente, Shyamalan modula o espaço como um verdadeiro esteta. Mesmo para os que rechaçam toda a sua obra constantemente (mesmo os melhores, e Trap não chega onde The Village chega) num discurso de senso-comum viciado que vem do que há de pior na crítica americana da era da internet, trata-se do melhor espetáculo de construção de tensão do ano, até agora 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

O Sequestro do Papa (2023, dir. Marco Bellocchio)

 É interessante como o Bellocchio, marxista, insere o divino em meio ao cinismo do Poder da Igreja Católica. O divino parece estar presente, rindo de maneira sádica, livrando um padre de um julgamento no qual ele deveria pagar por seus crimes, depois subitamente atacando o papa quando as massas começam a se levantar agressivamente contra a instituição. De alguma maneira, o divino está sempre presente. Pura emoção. A força da "análise dos mecanismos de poder" de Bellocchio vem justamente da aderência, da crença na força desse poder. O ato de cair ao chão, de se prostrar e submeter a Deus e ao papa, recebe especial atenção. Em O Sequestro do Papa, o "prostrar-se" é um ato de tensionamento de poderes ou demonstração de força (a cena da língua no chão), de sacrifício supremo (a cena da janela, no início), de punição divina (o papa tendo um ataque epiléptico e caindo na escada), de revolução (a estátua religiosa caindo no chão quando os populares tomam o templo). Fugindo do grotesco, Bellochio traça, com esse tipo de relação entre os gestos físicos, materiais, as relações de poder ali existentes, e recria a própria mescla cinzenta do brutalmente físico (os pregos de Cristo) com o metafísico (as ambiguidades da imagem, as sombras) que perpetuou o poder católico por tantos anos, e que hoje é ausente até na estética de representações desse tipo. Pasolini teria adorado esse filme.