sábado, 24 de setembro de 2022

Crítica - "Le Trou" (1960, dir. Jacques Becker)

Lançado em um ano decisivo para o cinema francês, figura na lista dos melhores daquele ano na Cahiers du Cinéma, junto com Mizoguchi, Godard, Hitchcock, Antonioni e Truffaut.

Le Trou é um grande filme de prisão, que prioriza o trabalho árduo, físico, dos detentos que tentam escapar. Sem trilha musical, os sons que ficam na cabeça são os das ferramentas criadas pelos prisioneiros, que se escondem por trás dos sons da reforma que ocorre no presídio. Jacques Becker faz questão de mostrar todo o processo da quebra do chão da cela com uma picareta improvisada, por exemplo, e também o esforço físico dos presos para soltar uma barra que restringe o acesso a um porão, o molde de uma chave, a construção de um pequeno espelho para vigiar os guardas no corredor, a operação de bonecos de papelão para servirem de sósias para o grupo durante a noite.  

É um filme narrativamente muito direto, sem grandes contextualizações ou devaneios, no qual vários momentos de tensão são construídos pelo estabelecimento de expectativas (coisas que poderiam dar errado na fuga) que nunca são consumadas. Em um determinado momento, os detentos improvisam uma ampulheta para não perderem a noção do tempo que passam no porão do presídio. A ampulheta nunca quebra, nunca é virada antes da hora acidentalmente - tudo ocorre como o planejado. A expectativa foi plantada, e o suspense domina. Talvez a cena mais representativa do suspense do filme seja a andança de Roland e Manu pelos corredores subterrâneos da prisão - um verdadeiro labirinto. O mesmo plano, dos dois andando com tochas improvisadas em direção ao desconhecido, é repetido algumas vezes - o foco no árduo, na dificuldade da situação continua presente. Em determinado momento, guardas aparecem, seguem sua vida cotidiana, e Roland e Manu se equilibram um em cima do outro para não serem notados, atrás de uma coluna.

Além da impecável construção de tensão, o elenco (os detentos, os trabalhadores) não fica para trás, bem como a mise-en-scène que valoriza essas figuras, quase apagando o cenário monótono do presídio. Há uma construção de tensão sexual, também nunca consumada, entre o recém-chegado Claude e o veterano Manu - em uma cena essencial, Claude recebe uma evasiva de sua amante, e depois disso quase veladamente propõe uma fuga com Manu a dois: "quase poderíamos ter pego o táxi", diz ele, na cena representada pela foto acima. Após a não realização dessa vontade, Gaspard parece tomar decisões muito mais egoístas e erráticas - o final do filme é surpreendente. Completamente proposital ou não, o homoerótico é um elemento importante do filme. Em Le Trou, Becker equilibra brilhantemente erotismo, suspense, momentos mais lúdicos e momentos mais tensos.

Está disponível na MUBI e em outros locais. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Nota 16/9/22

Woody Allen disse em uma entrevista para Godard que detestava sair da sala de cinema e voltar ao mundo real. Acho até que a realidade insuficiente é um motivo legítimo para ver algum filme, mas as melhores experiências cinematográficas trazem um fôlego e um respiro que nos faz sair da sala de cinema renovados, sensorialmente atentos e presentes. O cinema retoma algum tipo de contato com o mundo que às vezes se perde, e muito disso deve ser por causa da relação singular com o tempo.

O mundo fora da sala de cinema melhora depois de uma boa sessão.



terça-feira, 13 de setembro de 2022

Crítica - Marte Um (2022, dir. Gabriel Martins)

 

Duas experiências recentes que tive em salas de cinema terminaram com todos os sentidos mais aguçados, com um sentimento de presença e um retorno sensorial muito prazeroso ao mundo exterior. Memória, de 2021, do Apichatpong, e Marte Um.

Marte Um acompanha a cada membro de uma família em um período de grandes mudanças na esfera pessoal e na esfera política do país (a eleição de Bolsonaro é citada diretamente duas vezes). É um melodrama clássico, e dos mais bem executados, onde as questões sociais e emocionais estão de mãos dadas. 

O que mais impressiona é a vitalidade do filme, a ternura de cada um dos personagens. Todos os atores (em sua maioria iniciantes) que compõem o núcleo familiar ajudam a construir um mosaico humanista e esperançoso, e a fotografia parece servir principalmente a esses rostos - a destacar cada sorriso, hesitação, olhar. E é justamente nisso que reside um otimismo comovente, que como outros textos já apontaram, é tão síntese do próprio Brasil.