terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Crítica - France (2021, dir. Bruno Dumont)

 

Tem spoiler.

France estreou em Cannes e foi escolhido como quinto melhor filme de 2021 pela Cahiers du Cinéma, logo acima de A Crônica Francesa (filme no qual Léa Seydoux também tem um papel de destaque) e logo abaixo de Drive my Car. Apesar disso, passou relativamente despercebido, mesmo sendo um dos filmes mais reflexivos e envolventes do ano. A verdade é que filmes que pensam o lugar das imagens da TV e do cinema no mundo contemporâneo de maneira criativa são sempre bem-vindos, principalmente numa época de poluição visual, uso indiscriminado de closes e temas rasos tratados com pretensão. Bruno Dumont construiu uma sátira provocativa da cultura resultante da televisão por meio de um estudo de personagem repleto de metalinguagem. É difícil de discorrer sobre, mas além disso é um filme bem divertido.

Léa Seydoux interpreta France, jornalista de campo e apresentadora-celebridade, presa em um ciclo inescapável de narcisismo. Considerada corajosa por sua imersão em cenários extremos, France mais encena do que reporta - ela age como uma diretora ao criar planos/contraplanos em sua primeira cena como repórter de campo. A inserção dela mesma, a estrela do show, nas condições de guerra mostradas nas reportagens é revelada ao longo do filme como sendo quase fictícia, e "quase" é uma palavra bem chave aqui. France descansa em um hotel confortável a centenas de metros da zona de guerra na qual apareceu, momentos antes, correndo junto dos soldados. France dirige planos gerais em uma lancha grande e confortável ao lado de um bote lotado de refugiados e no qual ela sobe apenas para conseguir o essencial da matéria. France pressiona insistentemente uma mulher casada por 20 anos com um homem que ela não suspeitava ser estuprador até conseguir uma resposta que procurava - e que acabou virando a manchete do caso. Para a assistente da apresentadora, interpretada por uma divertidíssima Blanche Gardin, o que France faz é arte. É?

O foco dessas reportagens televisivas assinadas por France, que as apresenta em seu próprio programa, no fim das contas é ela mesma. Seu choro, sua performance, sua reação ao que acontece ao redor é o que realmente importa.  A "obsessão pelo real" incentivada pela televisão é, na realidade, uma obsessão pelo real fictício, dramatizado e ampliado pela bela repórter loira que chora. Um real decupado, interpretado e projetado de um ponto de vista de cima. France, com essas matérias emotivas e repletas dela mesma, se tornou uma verdadeira celebridade, constantemente interrompida na rua por pessoas de todas as idades pedindo uma foto.

O aspecto de estudo de personagem, que amplia essa crítica da cultura de imagens atual, vem à tona quando France tenta desesperadamente dramatizar todos os aspectos de sua própria vida íntima, como faz nas matérias de seu programa. Do nada, após uma reportagem tensa em um cenário de guerra, ela tenta beijar na boca um intérprete, com quem trocou apenas algumas palavras - é um momento constrangedor, que era para ser poético. Quando inicia um caso com um homem que conhece em uma colônia terapêutica, France mal parece querer blindar essa relação do público, se escondendo apenas atrás de um sobretudo preto  e brilhante em um café chique de Paris em plena luz do dia. Nesses momentos, vemos que France é só casca - uma vítima inevitável da cultura de imagens apelativas e ao mesmo tempo difusora dessa cultura. No fim das contas, France, como pessoa, é assustadoramente vazia.

As intempéries e escândalos com os quais a protagonista sofre ao longo do filme (o atropelamento de um motociclista e o vazamento de um áudio com Blanche Gardin discutindo o quão bom seria se um refugiado tivesse caído do bote em uma reportagem, para efeitos dramáticos) são passageiros e não acarretam muitas consequências na prática - a dramatização vem muito mais da própria France, que chora enquanto a família da vítima do acidente parece tranquila e fascinada por ter conhecido uma celebridade, e também chora durante o trabalho voluntário com pessoas de rua, que desprezam a reação da mulher perfeita e privilegiada). France chora, o escândalo ou o baque emocional passa, e nada muda. Conforme a vida pessoal de France vai se complicando, começa-se a desenhar uma relação entre a crítica à cultura de imagem atual e a intimidade de France, tudo isso por meio do vazio do choro da protagonista.

Um close, um olhar para a câmera e várias lágrimas. Esse procedimento específico é usado por Dumont para revelar a personalidade puramente performática de France e ao mesmo tempo provocar o espectador sobre o caráter ficcional das imagens televisiva e do cinema, aproximando-as. É um procedimento que resume todo o filme, tematicamente. Nas reportagens em seu programa, France olha para a câmera e chora, às vezes depois de algumas tentativas malsucedidas. Porém, quando France está sozinha, em algum momento íntimo, o mesmo acontece. Um close, um olhar para a câmera (de Bruno Dumont, não do cinegrafista de France), uma contorção de rosto e lágrimas. É impossível não sentir empatia - Léa Seydoux é uma atriz boa demais. Mas o mais interessante é que a aproximação das cenas de choro supostamente performático com as cenas de choro íntimo serve um propósito duplo: demonstrar de maneira assustadora o quão vazia é France e revelar que, no fim das contas, Léa Seydoux (a atriz) faz a mesma coisa que France (a personagem). É tudo performance! Ficção e realidade estão muito mais próximas do que imaginamos na contemporaneidade. O filme enfatiza esse procedimento de linguagem e repete diversas vezes, em rimas visuais. 

O choro que France apresenta na guerra é o mesmo da despedida de um programa, que é o mesmo que se compadece de moradores de rua, que é o mesmo que ocorre depois da descoberta de uma traição de confiança, de um escândalo na TV e da morte de familiares. Assim, um ato íntimo capturado em um simples close, por associação, muda completamente a percepção do espectador de uma personagem. É Léa Seydoux que faz com que cada um desses choros tenha o peso necessário durante o filme, junto com o poder reflexivo das rimas visuais do cinema! No final, o que difere a TV do cinema (além da relação com o tempo) é essa capacidade de pensar as imagens. A beleza do filme está em unir todos esses aspectos reflexivos, a psicologia da personagem e a crítica abrangente da cultura, na figura má e trágica da France de Léa Seydoux.

Há mais uma cena que eu considero interessante do ponto de vista temático - a entrevista de France com o atual presidente da França, Emmanuel Macron. A cena é lúdica, serve para introduzir a jornalista e sua assistente em ação, mas a interação com o Macron da vida real acaba por mais uma vez questionar os limites da ficção - o diálogo de Léa Seydoux com o presidente logicamente não foi gravado do jeito convencional para o filme. A cena é criada quase artificialmente, com trechos inéditos de Macron gravados por Dumont e trechos antigos de coletivas de imprensa, mesclados com muito cuidado para aparentar um diálogo da protagonista com o presidente. O falso é criado a partir do real, segundo Dumont. O real e o ficcional se unem novamente. Bom demais, rapaz.

Por fim, destaque para a colorização bela e estranhamente artificial do filme que, de mãos dadas com a trilha sonora sombria em dream pop, traz para os momentos supostamente íntimos a aura desconfortavelmente brilhante da televisão. Sinto que mordi mais do que consigo mastigar com France, filme complexo que é. De qualquer maneira, é gostoso de assistir, e Dumont realmente pensa o cinema e a imagem contemporânea como tantos poucos. Acho importante que filmes assim sejam encorajados. E viva Léa Seydoux!

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Notas da semana - Titane, Festival do Amor, Spencer, A Filha Perdida (2020/21)

Aqui vão uns pensamentos meio soltos sobre alguns dos filmes recentes que vi nas últimas semanas na tentativa de tirar o atraso. 

Festival do Amor (dir. Woody Allen)


Wallace Shawn é Rifkin - um divertido e cínico ex-professor de cinema (a caracterização é, na realidade, o próprio Woody Allen) que suspeita, durante uma visita a um festival, de um caso de sua esposa com um jovem diretor pretensioso interpretado por Louis Garrel. Durante a estadia em San Sebastian, o solitário Rifkin vive reclamando do estado do cinema atual (principalmente sobre os temas óbvios tratados como se fossem extremamente originais por diretores pouco interessados nos grandes mestres do passado).

O olhar cansado sobre o presente e a preferência por um passado idealizado (e pelas grandes artes) são temas comuns na filmografia recente do Woody Allen (vide o hit and miss Meia-Noite em Paris [2011]) e poderiam (com certa razão, na minha opinião) ser tratados com amargura pelo diretor. 

Mas o Festival do Amor foge do ressentimento fácil e da nostalgia arrogante, principalmente ao aproximar Rifkin (ainda paranoico e incomodado com o caso de sua esposa) de uma médica cinéfila - a velha hipocrisia do corno traíra traz um elemento muito cômico ao protagonista e acaba relativizando tematicamente suas próprias opiniões. Ainda assim, é claro, o veredito pesa a favor de Rifkin, que termina em paz consigo mesmo.

No fim, a moral parece ser: ´´to each his own, mas cá entre nós, os grandes cineastas do passado continuam sendo os melhores, né?´´. Justo o suficiente.

Sim, gostei bastante. É bem engraçado (o sarcasmo de Wallace Shawn ao comentar o pacifismo do filme de guerra de Garrel é impagável), simples no visual (quem sabe até demais) e despretensioso. As reconstituições minimalistas de filmes como 8 e 1/2 e O Sétimo Selo (Cristoph Waltz interpreta a Morte) são bem-vindas também. 

Um breve comentário sobre a injusta recepção negativa do filme: é melhor que Meia-Noite em Paris, que muitos gostam.

Spencer (dir. Pablo Larrain)


Admito que fiquei desapontado com o filme, que retrata uma princesa Diana no ápice de um colapso psíquico em um Natal. A impressão que fica é que esse é um dos filmes dirigidos pelo Louis Garrel de Festival do Amor.

Kristen Stewart acerta nas poses tanto quanto Natalie Portman em Jackie. A performance dela é o ponto alto, chega a valer o ingresso. Pena que nem os visuais lavados e sem contorno (eu gosto) de Pablo Larrain salvam o roteiro monótono e solto. Não há vislumbre de felicidade, de liberdade para Diana fora do contexto no qual ela já está inserida, mas também não há suficiente foco no sufoco causado na princesa de Gales pela família real.

Começa bem - a notórica bulímica deve se pesar ao chegar na casa de campo e depois ao sair ( é uma tradição da família real na qual o aumento de peso seria prova do aproveitamento do Natal). Depois, cenas mal ritmadas de sofrimento que poderiam ser encaixadas de maneira aleatória no miolo do filme imperam. O fim de semana não parece piorar ao longo do tempo, a briga com o príncipe Charles e a frieza da rainha não mexem com Diana (e com o público) e não funcionam como fortes empurrões para um inevitável abismo. A ambição é o intimismo, mas o resultado acaba sendo a exploração constante e de mal gosto do sofrimento infinito da princesa. 

O filme melhora no final, quando mistura passado e presente (naquela casa, é tudo a mesma coisa, como diz Diana). Vemos a princesa correr sem rumo, reviver catarses de infância e transformar-se em Ana Bolena num fluxo bem bacana, bem musicado e honesto. Diana acaba se libertando, e decide confrontar as tradições da família ao levar William e Harry para a cidade em seu Porsche. Tudo isso é bacana, mas essa explosão de memórias e liberdade tem menos efeito depois de tantos minutos com pouca progressão.

Acho que fui muito agressivo aqui, seria desonesto dizer que o filme é simplesmente ruim. Mas The Crown, a série, acaba contando essa história melhor. E com um elenco de apoio mais interessante.

A Filha Perdida (dir. Maggie Gyllenhaal)


Nada mal a estreia na direção de longas da atriz Maggie Gyllenhaal, que conta com performance ótimas de duas das minhas atrizes favoritas dos últimos anos - Olivia Colman (de A Favorita) e Jessie Buckley (do sensacional Estou Pensando em Acabar com Tudo).

Os pequenos incômodos durante as férias de uma professora universitária em uma Grécia paradisíaca acabam dando vazão a um passado conturbado, de abandono das próprias filhas após períodos de sufoco materno. Acho o roteiro bem lapidado, principalmente nos primeiros vinte minutos. 

A personagem de Olivia Colman é difícil. O fardo materno, apesar de explicar sua ausência, não justifica as ações da personagem. O filme abraça essa área cinza, convida cada um a julgar Olivia Colman (e Jessie Buckley, sua versão mais jovem) como preferir.

Não tenho mais nada a dizer, o que diz muito sobre o filme também.

Titane (dir. Julia Ducournau)


Para quem viu o filme: tente descrever para alguém o enredo de Titane sem receber em troca um olhar de aversão e ter que se justificar dizendo que o filme é divertido pra caramba. É uma tarefa difícil. 

Após incendiar a casa de seus pais, a dançarina serial killer sexy e sexualmente confusa (!) Alexia se passa pelo filho de um bombeiro viciado, que se recusa aceitar a realidade. Ah, ela deve esconder a gravidez que a corrói por dentro (um bebê-metálico-cadillac). Uau.

Demorei para ver o ganhador da Palma de Ouro porque não gostei de RAW (2016), da mesma diretora. O film canibalisme é muita apelação pra pouca diversão. Grandes temas, pouca entrega na prática. A exemplo de David Lynch, não vou elaborar.

Dito isso, Titane é sensacional. Visceral no tratamento do corpo humano (é violento nos assassinatos, na automutilação e na gravidez bizarra de Alexia/Adrien), é envolto também por uma camada de onirismo metálico que deixa tudo muito divertido. Descrição vaga, mas surpreendente na sinceridade. Julia Ducournau equilibra muito bem ternura, comédia, tensão e o bizarro num filme primeiramente divertido e que a cada momento parece que vai explodir em violência (não gratuita e vazia, como muitas vezes em RAW, mas inusitada e impactante).

Ótimo em tudo.

Lulu