sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Uma experiência completa de cinema (Hatari, 1962, dir. Howard Hawks)

Publicado originalmente pela Cinemateca do MAM no catálogo da Retrospectiva Howard Hawks, de 2023.

Disponível em: https://mam.rio/cinemateca/retrospectiva-howard-hawks/#secao25

Hatari! é um dos melhores filmes de Howard Hawks. O diretor consegue êxito tanto nos aspectos já estabelecidos ao longo de sua versátil filmografia (o estilo direto, os compassos e descompassos das relações entre homens e mulheres, o foco nas ações que valem por si só) quanto nos aspectos mais ousados, até certo ponto experimentais, como o tempo mais dilatado e a narrativa rarefeita, suspensa, mais econômica do que nunca. Aqui, Hawks se permite divertir ao máximo com as interações entre os membros de um grupo liderado por John Wayne que caça e captura animais para o zoológico, em plena savana da Tanzânia.

A estrutura, bem simples e concisa, alterna entre dois tipos de sequências. As sequências de ação, de caça e captura dos animais selvagens (girafas, zebras, rinocerontes, antílopes); e sequências de convivência dos personagens na base, onde as relações entre cada membro da equipe são desenhadas e vão se tornando mais complexas, conforme a gradual inserção da recém-chegada fotógrafa Dallas (Elsa Martinelli) no seio do grupo. A partir desse pacto estabelecido (e só subvertido de alguma maneira na sequência final), Hawks desenvolve toda uma concepção de mundo otimista, baseada em uma profunda coexistência entre ordem e caos, natureza e civilização. Ele aborda os ajustes e desajustes da relação que a humanidade mantém com o mundo ao redor (selvagem) e que cada um mantém na esfera pessoal, nas relações interpessoais próximas. Como um pintor moderno que, com poucos traços, consegue trazer muita expressividade às figuras (e, a partir delas, temas) que recorta no espaço, Hawks trabalha com uma estrutura de fácil assimilação, que funciona em seu caráter repetitivo e que prioriza as interações dos personagens entre si e com o ambiente ao redor de todos, e as mais diversas emoções que essas interações podem suscitar: o amor, o ciúme, a cumplicidade. Emoções universais, o que é realçado ainda mais pelo fato de os personagens terem origens diversas: há uma italiana, um irlandês-americano, dois franceses, um alemão e um indígena nativo-americano.

Mesmo com os inúmeros acontecimentos e suas consequências (sejam eles acidentes que machucam fisicamente os personagens durante as cenas de caça ou um descompasso de comunicação que leva alguém à mágoa), o deslumbre pela beleza da composição das cenas impera, assim como as tiradas e ternuras trocadas entre os membros do grupo, todos muito diferentes entre si. Acompanha-se o cotidiano dos personagens com uma certeza de que, no fim das contas, tudo ficará bem, independente da hostilidade da savana ou dos desacertos sentimentais inevitáveis. Há tensão e relaxamento, momentos de perigo e de ócio, mas quase sempre há uma ordem otimista que permeia as ações e as reações dos personagens – isso é consequência da visão positiva (mas nunca ingênua, nunca negando o fator da violência e da possibilidade de morte) do filme sobre a civilização, e faz com que o espectador se preocupe menos com o que vem a seguir. Ao longo de todo o filme, Hawks coloca o espectador radicalmente no presente. Diferente de Bringing Up Baby, em que reina a expectativa de como a situação de Cary Grant ficará mais complicada conforme ele se deixa arrastar por Katharine Hepburn, ou de Scarface, onde sabe-se que o destino de Tony Camonte é inevitável, apenas questão de tempo, ou até de Only Angels Have Wings e Gentlemen Prefer Blondes, as expectativas em Hatari! são colocadas em fogo baixo, em uma experiência única de imersão no presente de cada momento, acentuando ainda mais a beleza das cenas de ação e a riqueza das cenas de ócio.

Hawks não perde de vista em nenhum momento, em seus grandes planos conjuntos nos quais quase todos os personagens estão presentes, a relação de cada um com seus pares. Uma profunda sensação de conexão entre todos é criada dessa forma – a todo momento os personagens têm um objetivo, um conflito e uma relação particular muito bem definida – e aparecem no quadro mesmo quando não são o foco principal da cena. A mise en scène enfatiza justamente a multiplicidade de sentimentos e diferentes relacionamentos presentes em vários níveis da tela.

O Sean Mercer de John Wayne, o sisudo mas gentil líder do grupo, e a Dallas de Elsa Martinelli, uma inexperiente mas corajosa novata, dividem o tempo de tela e os enquadramentos com outros personagens memoráveis. Pockets (Red Buttons) cumpre o papel de alívio cômico, além de ter medo do contato com os animais e sentir-se inseguro a respeito de Brandy (Michèle Girardon), outra figura – menos expressiva e interessante – que compõe o coletivo e por quem Pockets nutre afeto. Aqui, fica claro o paralelo entre a vida profissional e pessoal do personagem: sua relação com os animais se repete em sua relação com Brandy. Essa insegurança termina por ser superada, e tudo fica bem – Brandy também nutre afeto por Pockets. Além disso, ele é responsável por capturar diversos macacos por meio de um mecanismo engenhoso – um míssil que lança uma rede sobre a árvore na qual os animais estão refugiados. Pintado com as cores da bandeira americana, é um triunfo da utilização sagaz da tecnologia em plena guerra fria, mais um arroubo otimista do diretor.

O elenco ainda conta com Kurt (Hardy Krüger, um ex-piloto de corrida alemão) e Chips (Gérard Blain, um sniper francês), e a relação dos dois, desde o início, concilia rivalidade e amizade. Na primeira cena de Chips, que aparece em um hospital procurando trabalhar com a equipe após um acidente envolvendo outro personagem, Kurt acerta um soco no rosto do francês. Esse ato é devolvido mais tarde, quando Chips é contratado e se torna parte do grupo – Kurt reage à vingança com um sorriso de canto dos lábios. Depois, os dois acabam se interessando por Brandy, o que ocasiona ciúmes e cria um clima de competição. Os dois nunca chegam a se acertar completamente, a rivalidade não é (e não precisa ser) superada, e não impede uma amizade entre eles. Esses aspectos contraditórios convivem harmonicamente, como com os animais, onde a violência e a competição fazem parte da ordem natural das coisas.

A sensação de intimidade no seio do coletivo, de uma profunda conexão de amizade entre todo o elenco, parte também de uma atenção maior dos personagens aos próprios sentimentos, ao lugar de cada um deles no mundo, e também de um grau elevado de alteridade no meio do ambiente selvagem. Em uma cena emblemática, Pockets explica para Dallas o motivo do comportamento rude de John Wayne para com ela – se ele não gostasse da moça, não se daria ao trabalho de agir com desconfiança; se ele age assim, é porque ela conseguiu tocá-lo o suficiente para que ele acione um mecanismo de defesa, herdado de uma relação passada que deu errado (justamente pela má vontade da ex-mulher do personagem em se adaptar ao ambiente da savana). Em outro momento no filme, Dallas retribui o favor do amigo com outra análise. Sabendo do afeto que Pockets sente por Brandy, ela nota que Brandy não parece interessada em Kurt ou Chips, mesmo quando teve a oportunidade perfeita de demonstrar carinho. Dallas, que obviamente entende o comportamento de Brandy muito melhor do que qualquer homem ali presente, assegura Pockets de que ele tem uma chance com a garota, e o encoraja a agir. O conhecimento de uns aos outros expresso pelos personagens (e o interesse na psicologia de cada um por parte de Hawks) fortifica a sensação familiar, de camaradagem entre o grupo, e reforça a qualidade da alteridade como essencial à experiência humana de maneira orgânica, sem discursos moralistas – tudo gira em função dos personagens e da lógica positiva, mas nunca ingênua, na qual o filme opera.

A relação entre John Wayne e Elsa Martinelli é a mais importante do filme, e também a mais violenta. Dallas fica arrasada a ponto de abandonar o grupo quando sente que seus sentimentos por Sean não são correspondidos depois de meses de tentativas. Não por acaso, um dos momentos de maior tensão do filme ocorre com os dois, quando uma família de elefantes adultos aparece atrás de seus filhotes, que estão sob a guarda de uma Dallas desprotegida. O desacerto entre homens e mulheres é um tema recorrente nos filmes de Hawks, que aqui equilibra muito bem os momentos mais tristes de Dallas e de desconfiança por parte de Sean com cenas de ternura entre os dois. Um destaque é a cena do primeiro beijo que Dallas rouba de Sean. A personagem de Martinelli bota todas as cartas na mesa ao perguntar para Sean como ele gosta de beijar. Sean não compreende, e Dallas então parte para a ação. Primeiro, John Wayne está desconfiado. Por fim, cede e beija Martinelli apaixonadamente. Essa cena resume todo o arco do relacionamento entre os dois ao longo do filme – o fim da resistência de Sean em relação à moça e a gradual tomada de ação por parte de Dallas, que começa nada à vontade com o ambiente ao seu redor mas rapidamente aprende a se divertir com os animais e aventuras que aparecem.

A última sequência, quando John Wayne mobiliza todo o grupo para encontrar Dallas, subverte o pacto prestabelecido por Hawks entre cenas de perseguição na savana e cenas de ócio e preparação na cabana. Dessa vez, a perseguição acontece em plena civilização, na cidade, e os próprios elefantes agora auxiliam na procura pela moça. Hawks cria nesse clímax um tom mais cômico, é uma perseguição que só poderia terminar com um final feliz. Contraste marcante com as demais cenas de ação, em que a violência e grandeza de cada movimento (seja dos carros ou dos animais) são evidenciadas.

Hatari! é um filme sobre a relação do homem com tudo ao seu redor, e é um olhar confiante sobre toda a humanidade. Mesmo na violência (e não apesar dela), há um profundo amor e equilíbrio. Existe beleza nos desencontros e percalços que levam ao amor mútuo, desde que haja boa vontade para viver uma aventura. É toda uma filosofia de mundo de um homem conectado ao presente e que soube, com o mínimo de narrativa, trazer muita verdade. Tudo isso – mas principalmente o pacto de tensão e relaxamento, de alternância entre o íntimo no épico e o épico no íntimo que estrutura as longas sequências – faz com que Hatari! seja uma experiência completa de cinema. Uma experiência que louva a aventura em todos os sentidos.