quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Megalopolis (2024, dir. Francis Ford Coppola)

 Uma mitologia pré-pronta a respeito Megalopolis foi escrita em pedra muito tempo antes de o filme sair, passando pela história conturbada da produção autofinanciada por Coppola (análoga à própria história do filme e contada sempre de maneira diferente a depender da fonte jornalística) até chegar no marketing inflado que prometia um filme tão (ou mais) revolucionário quanto Apocalypse Now, passando pelas reações apaixonadas 8-80 desde Cannes. Mas se tudo isso parece às vezes tomar o lugar do próprio filme, e o internet discourse ao redor de Megalopolis (como aconteceu com o segundo filme do Coringa) parece, como na política, mais um enxame de elogios e desprezo meio vazios à americana, é importante assistir ao filme como um filme, não esperar demais nem subestimá-lo. Ver e deixar respirar. Assistir a Megalopolis é também perceber que quase tudo que foi dito está errado - principalmente o que foi dito por Coppola.  Não é um grande experimento avant-garde que aponta uma nova direção para o cinema e para o nosso mundo, assim como não é o grande trem descarrilhado egoico de um velho out of touch (e nos raros momentos em que se aproxima disso, no mínimo é um deleite, porque nunca é  isso). 

 

A melhor e maior sequência de Megalopolis acontece por volta dos primeiros 30 minutos. A celebração de casamento de Jon Voight (um banqueiro ancião) com Aubrey Plaza (uma jornalista ambiciosa e arrivista chamada Wow Platinum) ocorre em meio a um grande evento político/social na cidade de Nova Roma. Em um Coliseu ultramoderno, todas as peças do quebra cabeça denso que é Megalopolis estão presentes, desde o prefeito Cicero e toda sua família, até o sobrinho de Voight, Cesar Catilina (interpretado por um Adam Driver quase na chave contrária de Ferrari, no ano passado, mas igualmente enérgico), um arquiteto com uma visão de futuro para a cidade tão vaga quanto urgente. O conflito entre o arquiteto e o prefeito já está em ponto de ebulição desde as primeiríssimas cenas do filme, mas, nesse grande evento no anfiteatro, a primeira aparição pública da filha do prefeito como assistente e possível par romântico de Adam Driver piora tudo. 

 

Essa mesma sequência, que inclui ainda um leilão entre os ricaços pela manutenção da virgindade de uma celebridade (motivo para grande comoção pública e método útil de arrecadação de fundos para a cidade), uma falsa imputação de crime ao arquiteto por parte de seu primo (e de seu trio de irmãs incestuosas, as “meninas mais riquinhas e mimadas e toda a cidade!”) e uma alucinação movida a droga que traz a tona todo um caleidoscópio de sensações, sintetiza muito bem (e com um ritmo e um equilíbrio entre trama e extravagâncias que não existe mais com esse vigor e essa intensidade no resto do filme) o mundo de Megalopolis. Um mundo que pega o nosso próprio e eleva à décima potência, onde o político e o pessoal são sempre uma coisa só, onde os conflitos mais sérios e materiais são indissociáveis da farsa mais ridícula – um mundo de desfiles, de socialites, de colunas de fofoca, de unhas, dentes e sangue em meio a uma avalanche de entretenimento. Um mundo cuja estética é uma cópia barata da arquitetura do passado, um mundo que utiliza de outras culturas para se legitimar, mas que acaba sendo cômica e inevitavelmente hipócrita, visualmente inebriante no pior sentido possível. 

 

A guerra entre o prefeito e o arquiteto nos é apresentada em um outro evento, na segunda cena do filme, enquanto eles debatem em meio a andaimes na frente de diversos repórteres e asseclas que ao mesmo tempo estão posando para as câmeras, se colocando como personagens dentro daquele mundo, mas genuinamente se importando com tudo o que está ocorrendo, prestando muita atenção no que está em jogo, impondo uma certa gravidade. A própria câmera caminha entre acentuar o drama (quando Driver chama o prefeito de slumlord, num ataque bem político, bem midiático) e filmar o evento como um evento, com certa distância esquisita, que lembram fotos vazadas de sets tiradas por paparazzi ou membros da equipe. 

 

Esse é o mundo de Megalopolis. Dentro desse mundo, Coppola transita entre o cinismo e uma ingenuidade sincera, entre uma narrativa densa e imagens extravagantes que valem por si só como deleite visual, entre a força real de todos os conflitos sob os personagens e a comédia, o patético em tudo isso. Ele transita bem entre a farsa e o amor – algumas cenas do romance entre Julia Cicero e Cesar Catilina são realmente tocantes, como a suspensão do tempo sobre as vigas de construção. Ele mostra a aberração estética que é Nova Roma de maneira leve, sem pesar a mão – se as Claudettes são arrivistas incestuosas que só sabem cheirar e posar, elas são sempre divertidas de assistir, seja em primeiro plano ou no fundo do quadro, mais um detalhe preenchendo todo aquele mundo. Coppola permite que, por exemplo, Adam Driver faça parte estética e politicamente desse mundo hedonista e liberal de Nova Roma, mesmo que sua visão para aquele mundo vá em outra direção. Ele é, afinal, descendente do banqueiro mais poderoso da cidade, parte do status quo. Coppola também permite que o prefeito Cicero não seja um burocrata vazio ou um radical fundamentalista. Em uma bela cena, o prefeito exibe o talento da sua filha de memorizar citações de Marco Aurélio, num exemplo tão impressionante quando ridículo de erudição de prateleira, só para que ela se lembre sozinha de outras citações que contradizem a filosofia de vida do pai e dão razão para o arquiteto. Ele percebe que está errado, mas as emoções vencem, seu conflito com Driver é de ordem sentimental – uma visão generosa e que abre caminho para uma redenção do prefeito. A fábula de Coppola funciona nesse misto de generosidade e de olhar moral, justo e mais distante. Nessa linha tênue entre o comentário social mais sarcástico e só emoções humanas, críveis, materiais, importantes (a subtrama do personagem de Shia LaBeouf se tornando um líder de extrema direita se aproveitando do caos gerado pelo status quo, ainda que quase ridiculamente didática e explicativa [e “atual, importante”] acaba sendo perdoável justamente pela espontaneidade da dramaturgia, pela emoção dos atores envolvidos).

 

Não consigo imaginar outro diretor (ao mesmo tempo tão culto e tão americano, fascinado de maneira quase ingênua sobre as mais estranhas coisas) que consiga criar uma fábula épica sobre o nosso mundo chamando seus personagens de Cesar e Cicero e fazer isso funcionar. É sério, e não é. Vale lembrar que a personagem de Aubrey Plaza se chama Wow Platinum. Esse contraste talvez sintetize o filme, com todo o humor necessário, melhor ainda do que a intensa cena do anfiteatro.

 

A sinceridade e interesse do olhar do Coppola sobre todos os seus personagens, a construção do mundo tão fascinante quanto esquisito de olhar, a atenção aos detalhes e a imagens empolgantes que vão além do narrativo, tudo isso é louvável e perceptível em Megalopolis. Infelizmente, um filme tão grande e denso está fadado a ser irregular, e a segunda metade é mais arrastada e narrativa que a primeira, há menos espaço para o inesperado, e aí está o pecado de Megalopolis e de todo um certo cinema americano “correto” e legitimado por aí. Grandes momentos ainda acontecem, como a deliciosa e engraçadíssima (novamente, Coppola concilia primorosamente duas coisas) sedução de Shia LaBoeuf por Aubrey Plaza, a melhor atriz do filme, mas, como dito antes, a melhor sequência acontece muito cedo. 

Ainda estou aqui (2024, dir. Walter Salles)

Coisas que eu gosto: 

Os dois atores de Marcelo Rubens Paiva, o filho - trazem vida de verdade, sem tanto controle quanto o resto do elenco. Acho as duas performances mais tocantes. 
Toda a sequência que se passa nos anos 90, em São Paulo - acho bem filmada, a luz particularmente melancólica, além de ser o melhor momento de Fernanda Torres no filme, onde o peso do luto se faz sentir em meio ao cotidiano.
A cena da mudança, da casa esvaziada - ainda que viciada na forma (o piano constante que escorre do resto do filme para cá), ainda emociona muito mais do que outros "grandes momentos". A cena termina com uma bonita gravação em super 8 da casa da família Paiva, enquanto o carro dirige para longe, na mesma direção que Rubens Paiva foi levado no início. Bonito.

Por que a Fernanda Montenegro não é mais tratada como uma atriz, e sim como uma instituição? Acho que a cena dela nesse filme está na corda bamba entre o comercial do Itaú e a cena final da Vida Invisível (inclusive, me lembra o comercial até no enquadramento, no foco). Eu queria gostar mais, mas acho que tratar uma das grandes atrizes brasileiras como um monolito da Cultura é limitador com ela própria. Cadê o verdadeiro respeito, para além da Cultura, da adoração publicitária do ícone?

Na linguagem, é um filme da Retomada. Sem muita dramaturgia, mise-en-scène ou espaço para realmente mergulhar na vida ou na sensação daqueles personagens além do diálogo "realista" que, já sabemos, é um pseudo-realismo viciado que não chega lá, uma desculpa para criar diálogos somente pragmáticos e narrativos, que não têm o peso que o filme quer que tenham. Também mergulha-se na vida dos personagens mostrando-os nadando (no mar ou na piscina, outro vício) ou com planos feitos para exibir a direção de arte carregada de Beatles, tropicália, Godard e um esquisito e fora de lugar Jacques Tati. A dinâmica familiar é construída em cenas de festa, com todos dançando alegres, ou com cenas de praia. Já nas cenas melancólicas, música triste no piano a todo momento. Todas essas coisas são, evidentemente, vícios publicitários que substituem qualquer construção realmente densa, qualquer sensação para além da superfície. Se a superfície é, por vezes, tocante (e acaba sendo sim, esse é todo o intuito da publicidade), ela também é covarde, ela recorta a história da família Paiva da maneira mais apolítica possível, seguindo a moral e o "bom gosto" da elite brasileira - o deputado de esquerda não aparece, e sim o engenheiro pai de família. É grife, grife meticulosa e cuidadosa na manutenção da própria sensação de grife, sim, mas não é interessante como cinema, não constrói muita coisa. Não consigo, por exemplo, nem sentir nada durante as cenas de interrogatório.