quarta-feira, 22 de março de 2023

Sobre A Personagem Cinematográfica, de Paulo Emilio Salles Gomes

    Esse texto de Paulo Emilio Salles Gomes é o último da coletânea "A Personagem de Ficção", uma reprodução de boletim da USP sobre "Personagem" na literatura, no teatro e no cinema. Trata-se de uma ótima seleção de textos publicada pela editora Perspectiva, no primeiro volume da célebre "debates - literatura". Tendo em mente o tempo que passou (o boletim original foi publicado em 1964), decidi oferecer um contraponto a um aspecto específico do texto.

    Paulo Emilio traz uma diferença fundamental e muito interessante entre o personagem do teatro (descrito por Décio de Almeida Prado). Transcrevo alguns trechos muito interessantes aqui:

"O aprofundamento das reflexões talvez nos leve a cavar entre a personagem de teatro e a do cinema um abismo tão profundo quanto o que vislumbramos entre esta última e a do romance. Não podemos, com efeito, evitar no teatro uma distinção inicial entre o texto literário teatral e sua encenação. Hamlet é um herói de ficção que adquire estrutura através das palavras escritas dos diálogos da peça. Os diretores teatrais e os atores o interpretam, mas essas encarnações são provisórias, e no intervalo permanece a personagem com sua existência literária. No cinema a situação é outra. As indicações a respeito de personagens (...) constituem apenas uma fase preliminar de trabalho. A personagem de ficção cinematográfica, por mais fortes que sejam suas raízes na realidade ou em ficções pré-existentes, só começa a viver quando encarnada numa pessoa, num ator."

"Aliás, nos casos mais expressivos, tais atores são muito mais do que familiares, já são personagens de ficção para a imaginação coletiva, num contexto quase mitológico."

"Dentro da ordem de pensamentos aqui expostos, podemos admitir que no teatro o ator passa e o personagem permanece, ao passo que no cinema sucede exatamente o inverso."

"O que persiste não é propriamente o ator ou a atriz, mas essa personagem de ficção cujas raízes sociológicas são muito mais poderosas do que a pura emanação dramática."

    Esses trechos fornecem o que eu acredito ser um ponto de vista muito verdadeiro e válido - uma diferença significativa e facilmente observável entre cinema e teatro. Muito disso tem a ver com a própria condição material da produção de peças ou filmes, e com o desenho do star-system americano. 

    O problema, a meu ver, é que logo depois de apontar esse contraste, Paulo Emilio faz uma crítica ao inevitável plágio cinematográfico, e diz que o cinema reduz personagens célebres da literatura a um "digesto simplificado e pobre", diferente da retomada de figuras como Hamlet, D. Juan e Fausto por Shakespeare, Molière e Goethe, mas sem explicar o motivo ou ilustrar exemplos. O pesquisador e crítico ainda afirma que "No entanto, [o cinema] é capaz de criar personagens tão poderosas quanto as da literatura ou do teatro, que ele pilha e humilha, embora, nos seus 67 anos de existência, só tenha na verdade produzido uma: Carlito". 

    Paulo Emilio Sales Gomes continua: "o caso da obra de Charles Chaplin é até o momento singular na história do cinema. Da primeira à Segunda Guerra Mundial viveu na tela e impregnou-se nas imaginações uma personagem tão popular como os maiores ídolos da história do cinema e, ao mesmo tempo, tão consistente, coerente e profunda quanto as maiores figuras de ficção criadas pela cultura ocidental. A distinção estabelecida com o exemplo de Greta Garbo entre a personagem dramática e a mítica não se aplica a Charles Chaplin, onde a carga mitológica ficou concentrada em Carlito."

    Ora, se Paulo Emilio tenta aqui equiparar o processo do personagem Carlitos à maioria dos grandes personagens teatrais, em seus próprios termos - o que persiste é a personagem, não o ator, isso pode estar bem correto. A questão é o valor qualitativo imposto aqui, Carlitos como o único personagem tão poderoso (infere-se pelo trecho seguinte que os fatores qualitativos são popularidade, consistência, coerência e profundidade) quanto os grandes da literatura justamente e somente por causa dessa importância do personagem em si em relação a mitologia ao redor do ator, o que eu acho que, no caso de Chaplin, é quase indissociável. 

    Mesmo que no cinema a lenda dos atores seja mais poderosa até do que os personagens de um ponto de vista sociológico, isso não é uma diferença material e histórica, ao invés de qualitativa? E os atores não tornam essa diferença mais borrada e turva? Afinal, o próprio Paulo Emilio admite que os atores mais típicos do cinema são sempre sensivelmente iguais ao cinema, diferente da diversidade de personagens geralmente obrigatória para um ator de teatro. Ao longo do tempo percebemos que a lenda de Chaplin ficou indissociável de Carlitos, e não há atores interpretando o personagem por aí, a não ser em produções biográficas. 

    O sistema de produção cinematográfica faz com que lembremos o nome "Gloria Swanson" mais do que Norma Desmond, mas não é esta última uma grande personagem dentro do universo que é Sunset Boulevard, de Billy Wilder? O tempo não provou que talvez a relação ator-personagem seja mais flexível do que Paulo Emilio Salles Gomes descreveu e que, talvez, seu foco em Chaplin tenha outros vieses que tornam a comparação positiva em relação a todos os outros grandes personagens do cinema injusta (a versatilidade do personagem frente a diversas possíveis situações e filmes, algo não mencionado em seus critérios qualitativos)? O fenômeno Chaplin, ou Carlitos, eu diria, não diminui outros grandes personagens consistentes, coerentes e profundos, ainda que não tão populares, inevitavelmente. Assim como grandes personagens da literatura e do teatro que não são  mais tão populares. É o tempo e as mudanças que ele traz.