quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Algumas palavras sobre Jacques Rivette, le veilleur (1990 dir. Claire Denis)


Esse documentário sobre Rivette dirigido pela consagrada Claire Denis faz parte da série Cinéma de Notre Temps (diretores filmando diretores) e é divido em duas partes: dia e noite. 
 
O filme conta com a colaboração de Serge Daney, gigantesco crítico de cinema que mudou os rumos da Cahiers du Cinéma depois do conturbado período político do início dos anos 70. Durante todo o filme ele entrevista, ou conversa, com Jacques Rivette, considerado o mais combativo e radical dos críticos da Cahiers pré-Nouvelle Vague (lembremos o episódio da saída de Rohmer da revista). 
 
A dinâmica dos dois é bem-humorada, o crítico Daney não tem medo de cortar Rivette e muitas vezes tem ideias muito mais sólidas sobre o próprio cinema de Rivette do que o diretor - o papel dele aqui é quase de analista, além de instigador. Rivette, o líder, que avançava contra a polícia durante a crise da cinemateca francesa que prenunciava as revoltas estudantis de 68, aparece aqui como um homem tímido, inseguro, solitário como Tolstói. Muitas vezes, ele olha pela janela do café ao invés de manter qualquer tipo de contato visual com Daney, ou levanta os ombros em sinal de modéstia enquanto seus olhos procuram alguma coisa enquanto ele pensa, sem pressa, sobre sua próxima resposta.

Os dois falam sobre a vida de Rivette, contam algumas histórias da época da Nouvelle Vague, discutem características de seu cinema (como a importância do corpo inteiro, por exemplo, os poucos closes),  e ainda falam sobre práticas de trabalho, relacionamento com os atores, sobre teoria dramática e sobre grandes filmes. Tudo muito revigorante e interessante.

A câmera de Denis é viva. Nunca distraindo do objeto do filme, que é Jacques Rivette, os belos enquadramentos e movimentos de câmera da diretora ressaltam sempre as próprias conversas, mesmo quando passeiam por Paris. É uma câmera intimista.

É um belo filme - um registro bem gravado de conversas importantes e únicas, que vêm do lugar mais curioso e sincero tanto de Daney quanto de Rivette (e de Denis também). Ao final, é quase impossível não querer assistir Pont du Nord, ou Out 1, ou L'amour Fou, filmes comentados e mostrados no documentário. 

 

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Crítica - Eike: Tudo ou Nada (2022), dir. Andradina Azevedo, Dida Andrade

 

     
 
Eike: Tudo ou Nada, lançado discretamente na Netflix em 2022, começa e termina com um cover de Aquarela do Brasil, colocando a biografia do agora decadente megaempresário como síntese irônica do Brasil em si, ou do "capitalismo à brasileira", como é descrito por Malu Gaspar (jornalista e autora do livro que deu origem ao filme) esse fenômeno de grandes impérios especulativos de braços dados com o poder público. O uso irônico da música não é novo, Nelson Pereira dos Santos abriu o clássico Rio 40 Graus (1955) com uma versão orquestral da Aquarela. Mas o que na história de Eike Batista, ou melhor, no recorte que o filme apresenta dessa história tem de síntese do Brasil? Ouso dizer que quase nada.
 
O problema é que o filme não é feliz nem como biografia compreensível de uma figura decadente nem como crítica maior ao poder especulativo absurdo do sistema financeiro que levou o empresário ao topo da tal lista da Forbes de homens mais ricos do Brasil.

Nas inúmeras e repetitivas cenas de Eike Batista (interpretado por um enérgico Nelson Freitas) discutindo ou comemorando algum obstáculo ou vitória, o foco está em sua personalidade intragável, no reforço constante de sua arrogância doriana. O foco é, portanto, sempre moral. Eike trai seus colegas, Eike trai a esposa, Eike é megalomaníaco e ganha no grito, Eike fica puto quando tal empresa decide não participar do leilão, Eike fica maquiavelicamente feliz quando consegue empregar ex-técnicos da Petrobras e dá aquela risada típica de vilão de desenho animado. Que horror, não? Pois não há nada além disso. Não só não há nada além, essas muitas cenas não são interessantes em si. 

A história do empresário, que o filme conta sem muito interesse de mise-en-scène ou de ritmo, não fala por si só - ao invés de trazer algum peso dramático para os inúmeros altos e baixos de Eike em sua cruzada no mercado financeiro, o filme decide encaixar um sub-enredo paralelo, que consiste em um pai de família de classe média seduzido pelo discurso liberal do mercado financeiro e que põe as finanças domésticas em risco ao investir nas empresas de Eike Batista, que eventualmente quebram. Mais ilustrativo do que isso impossível, e o caráter moralista da história, condizente com o resto do filme, mata qualquer teoria de que esse subplot tenha sido montado de última hora, para fazer com que o filme passe de uma hora e meia de duração.
 
Tudo isso acontece principalmente no escritório do grupo X, com câmera na mão à Padilha e colorização que lembra uma peça publicitária do Itaú, e a monotonia impera apesar da gritaria dos acionistas, da suposta tensão de um leilão ou da demissão de algum personagem que deveria ter alguma importância, como o inexpressivo narrador-personagem americanizado.
 
Um filme adaptando o outro livro de Malu Gaspar, A Organização, sobre a família Odebrecht, é inevitável. A briga entre pai e filho de personalidades distintas é de um caráter tão épico (um dos elogios ao livro é que "parece ficção", e é mesmo um bom livro), que já dá para imaginar algo na mesma veia de Eike, com fotografia jornalística e performances exageradas. Esperamos que seja diferente, pois esses capítulos da história do Brasil, por mais anacrônicos que pareçam em um 2023 pós-Bolsonaro, merecem uma boa dose de reflexão crítica e êxtase que o cinema traz tão bem.