sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Crítica - Benedetta (2021, dir. Paul Verhoeven)


A pandemia (principalmente em 2021, o segundo ano) afetou bastante o meu entusiasmo (físico, inclusive) para assistir a filmes, confesso. Alguns pontos altos inéditos do ano que passou - o documentário gigante Get Back, o poderoso conto medieval Green Knight, o elegante French Dispatch. Conheci coisas legais na faculdade também, mas continuo atrasado nos grandes lançamentos de Cannes e Veneza (o novo Apichatpong, o novo Joachim Trier, o novo Hamaguchi) e na minha lista pessoal. Vou me esforçar para correr atrás do prejuízo, com calma. Spencer foi lançado essa semana aqui perto, devo ver logo mais.

Nessas últimas semanas, ainda cansativas e desanimadas, em preparação para ver Benedetta (2021), assisti a Showgirls (1995), do Paul Verhoeven. Curti bastante, o roteiro é bem lapidado. A reputação terrível do filme é injusta - Verhoeven é conhecido e duramente criticado por seus excessos, mas as escolhas controversas (em forma e conteúdo - sempre indissociáveis - nas ações dos personagens, na estética, no sexo) cumprem um propósito temático bem definido (crítica do sistema de vida e trabalho americano que transforma todos em manipuladores e que por baixo de camadas de hipocrisia encoraja violências e imoralidade). Fico feliz que hoje em dia muitos reconheçam isso. Foi uma das experiências mais divertidas e enérgicas que tive recentemente. Benedetta, apesar da proposta chocante e ardente (a cena erótica envolvendo uma estátua da Virgem Maria dominou todas as manchetes sobre o filme), vai numa direção diferente, poderosa nas suas sutilezas e que faz (surpreendentemente) pouco caso de sua própria heresia. É uma fase distinta na carreira do Verhoeven, que lembra mais Elle (2016). Até os créditos iniciais são parecidos. 

Benedetta é um romance tórrido entre a mesma e a noviça Bartolomea durante a crise de peste bubônica na Itália (paralelos com a pandemia de coronavírus serão inevitáveis). Benedetta sofre com visões que borram religião e desejo sexual. É baseado em pesquisas da acadêmica Judith C Brown, autora de Immodest Acts. O filme foge de choques baratos, preferindo focar nas sutilezas morais dos personagens, nas alucinações sexuais-religiosas de Benedetta e nos mistérios acerca da santidade ou não da protagonista. Pode parecer engraçado falar de sutilezas e cinzas num filme em que Jesus aparece para decapitar umas cobras com um cajado, mas aqui vamos nós.


Desde o início, as visões que acometem Benedetta já revelam uma interpretação mais carnal da relação Jesus-freira. Aos poucos, enquanto vai se entregando a um relacionamento lésbico com a noviça Bartolomea, Benedetta tem visões cada vez mais viscerais. Quando estigmas aparecem na devota freira após uma das visões (na tradição católica, estigmas são materialização em uma pessoa santa dos ferimentos de Cristo na cruz) ela passa a ser temida, nos dois sentidos, ganhando poder na cidade de Pescia. Não se sabe ao certo se os estigmas são verdadeiramente divinos, se Benedetta cometeu automutilação durante seus períodos de transe, se os ferimentos foram feitos conscientemente ou se todas essas possibilidades podem estar corretas e se misturar, até certo ponto, ao longo do filme. 

Essas dúvidas são todas propositais, equilibradas cuidadosamente por Verhoeven. Há, por um breve segundo, uma aparência de resposta. Benedetta, no final do filme, encena (forja) de propósito mais um incidente de estigma, mas seu diálogo de perdão com Bartolomea, alguns segundos antes ("Não se preocupe, era preciso que eu fosse traída"), aproximando-a de Jesus, gera perguntas: mesmo encenando, Benedetta acredita no seu próprio caráter divino? Sua fala messiânica com Bartolomea, sua companheira mais íntima, é uma invenção consciente, na má fé? Essa cena revela o modus operandi de Benedetta como manipuladora no filme inteiro, é a culminação de um desvio psíquico, ou propositalmente aproxima encenação humana e atos divinos? Onde o livramento da cidade de Pescia da peste bubônica entra nessa equação? A beleza do filme está aí, nesses questionamentos colocados.

A Igreja é representada como cética, quase reduzida a seus ritos comerciais, nem pretensão de ilusão, de mágica visual há. Uma noviça diz a sua mãe (e Madre Superiora, interpretada por uma grande Charlotte Rampling) que não sabe se acredita em milagres, sem nenhuma repreensão. O padre só se interessa pelos estigmas de Benedetta como uma possibilidade de aumentar seu poder. A abadessa confessa estar no convento por comodismo. Eles não são cegos pela fé - esse papel pode ser reservado quase exclusivamente a Benedetta. As atrocidades cometidas durante o julgamento quase não têm justificativa. O filme, assim como não abraça choques baratos, não faz condenações fáceis, convencionais. O olhar sobre a religião na época é expansivo, brutalmente severo quando deve ser (na tortura) mas nunca gratuito - lembrando que as cenas mais provocativas, como a da estátua, não são exaltadas pela própria câmera. De novo, um filme de sutilezas e equilíbrios.

Pena que há uma certa monotonia que permeia o filme. No ritmo e na decupagem. Enquanto eu aprecio que certas provocações não foram dramatizadas ao extremo pela câmera, talvez trazer mais frieza para o convento (com menos música, por exemplo) e mais dramaticidade cênica, visual, nas cenas alucinatórias ou divinas fosse uma boa escolha. De cena pra cena, tudo acaba ficando mais do mesmo - falta tensão e relaxamento. O saldo continua positivo, mas foi algo que me incomodou. Talvez eu esteja só sendo chato.

Elle (2016), que também vi recentemente, pode ser meu Verhoeven predileto até agora. Suspense psicológico com Isabelle Huppert (em ecos de Piano Teacher [2001]), também inclui Virginie Efira interpretando uma moça religiosa e uma sequência de créditos iniciais muito parecida com Bendetta. É muito bem ritmado, tenso, uma daquelas experiências completas de cinema - esse eu super recomendo.

Lulu



Mais breves notas soltas sobre Benedetta:

O relacionamento de Benedetta com Bartolomea é quase totalmente carnal. Não é, de maneira alguma, romantizado de maneira convencional, nem no fim. Escolha interessante, combina com a psiquê hiper-sexual da protagonista. Ainda sentimos pelas duas no final, com certeza. 

O trabalho com atores no filme é sensacional. Virginie Efira engrossa tanto a voz quando fala por Cristo, é de dar medo. Lambert Wilson é deliciosamente arrogante - depois do Merovíngio nos Matrix (ele faz uma aparição belezinha no Resurrections também), ele foi a escolha perfeita. 

Uma provocação visual interessante é o ato de despir, de revelar o seio. Ato maternal e sexual, o contato da pequena Benedetta com o seio de uma estátua da Virgem, repetido diversas vezes com Bartolomea, ganha outra conotação quando o núncio de Lambert Wilson revela feridas causadas pela peste bubônica no peito.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Crítica - A Crônica Francesa (2021, dir. Wes Anderson)

 



Wes Anderson retornou em 2021 com o aguardado A Crônica Francesa, primeiro live-action do diretor desde 2014 (quando foi lançado O Grande Hotel Budapeste, triunfo absoluto e queridinho pessoal do autor desse texto). Fez ainda Ilha dos Cachorros em 2018, boa animação stop-motion. Crônica sofreu atraso por conta da pandemia, e a espera valeu a pena.

O estilo do diretor é facilmente reconhecível - os elementos do quadro dispostos em simetria rígida são muito particulares, e muitos atores são recorrentes ao longo de sua filmografia (Owen Wilson está com Wes desde seu início, na versão curta de Bottle Rocket [1994]). Alguns dizem que a mesmice de suas brincadeiras visuais já encheu o saco, como se todos os seus filmes fossem iguais. Longe de ser verdade. A filmografia de Wes Anderson é uma trajetória interessantíssima, com características comuns a todos os filmes, mas que também revela uma versatilidade incomum de temas e abordagens que em forma e conteúdo vão do mais cru ao mais extravagante.  Ele sabe dosar as características que o distinguem dos demais diretores, que são ao mesmo tempo seus lugares comuns, e combiná-las com as novidades e descobertas que cada filme pede. Sempre há algum avanço, algum aspecto inédito em seus filmes, no tema e na estética.

Assim, combinando sua rigidez simétrica e momentos íntimos de discussão familiar com grandes aventuras e comédia ácida na escala que cada história pede, Wes navega por diferentes gêneros, referências artísticas e países. Aborda ao longo de seus filmes o sistema escolar americano, viagens religiosas, incesto, adoção, meia idade, história da arte, infância, imprensa. Cada um dos filmes tem um grau diferente de espetáculo visual, de mergulho no tema central e de humor.

A Crônica Francesa é um passo importante na evolução da obra do diretor. É seu filme mais elegante, mais erótico. O filme que mais se delicia no prazer das cores (e do P&B). Não poderia ser mais diferente do estilo seco de Bottle Rocket (1996). Grande Hotel é até próximo, mas é mais lúdico e menos sensual, mais aventuresco e menos interessado nas silhuetas e poses. Os desenhos da mise-en-scène aqui pedem mais tempo para serem admirados. É uma experiência sensorial forte.

Wes Anderson sempre teve um carinho grande por seus atores. Dessa vez, ele demonstra esse carinho iluminando seus atores de modo a realçar a beleza de cada um, valorizando a escultura. Timothée Chalamet e Frances McDormand são o casal mais sexy de 2021, com certeza. Aí, e em outros elementos, o diretor bebe da Nouvelle Vague, referência muito bem-vinda. Descrito como uma carta de amor à imprensa, Crônica é antes disso uma carta de amor ao cinema, especificamente francês e da década de 60 (além do sempre presente Tati, em certa escala). É interessante ver Wes Anderson transformar Lyna Khoudri em Anne Wiazemsky, da Chinesa de Godard (1967), na segunda seção.


O filme é marcante também pela sua estrutura narrativa, a mais singular em um Wes Anderson até agora. Dividido em capítulos (coleção de artigos do jornal French Dispatch, comandado por Bill Murray), cada seção do filme é narrada por um jornalista (Tilda Swinton, Frances McDormand e Jeffrey Wright), e cada uma tem seu tema e seus personagens. Estratégia arriscada, já que uma desigualdade acentuada entre a qualidade das três histórias mataria o filme. Mas todas as seções são boas. A primeira é um pouco melhor do que as demais, somente (também pela elegância visual - mais presente nessa seção, estrelada por Benicio del Toro, Léa Seydoux e Adrien Brody). Inclusive, não é incomum para filmes do Wes Anderson que certas sequências menos interessantes apareçam por aí. O bom é que todas as três seções são sucintas e bem ritmadas, sem espaço para mais ou menos. O roteiro é livre no que interessa e rígido quando necessário. Uma combinação gostosa de assistir.

Sendo assim, o novo Wes Anderson alcançou e superou as altas expectativas. Não sabemos o que esperar do diretor em seu próximo filme, se o espetáculo elegante de cores vai continuar, ou se devemos esperar mais luz natural e menos esculturas. De qualquer maneira, vai ser interessante saber. 

Lulu


Apêndice

Em relação às três histórias:

A primeira, narrada por Tilda Swinton (numa performance classuda e divertida), trata de um pintor-prisioneiro, interpretado por Benicio del Toro, que tem um caso com a carcereira Léa Seydoux. Adrien Brody é um mecenas sacana. É o mais sensual e engraçado dentre os capítulos do filme. 

Na segunda história, Wes até se permite ao uso de câmera na mão, em uma revolta estudantil. Há bastante energia aqui, a solitária Frances McDormand é o destaque. Aqui, as referências à Nouvelle Vague são bem diretas, constroem o próprio mundo dos personagens.

A terceira história é o clímax policial protagonizado por Jeffrey Wright completo com tiroteios e uma aparição inesperada de Saoirse Ronan. Contém uma seção em animação. Achei essa a mais fraca das histórias, mas, pensando bem, o filme parou duas vezes durante essa parte no cinema (problemas técnicos). Seria bom rever.