Há mais erotismo e verdade aqui do que na maioria dos filmes e séries mainstream com temática queer dos últimos anos (pois Estranha Forma de Vida foge ao máximo das tendências formais contemporâneas à Netflix, tomando o rumo oposto). É um filme sobre camadas e mais camadas de pretextos, sobre segundas e terceiras intenções que desabam quando o desejo sexual é liberado. É também um filme sobre como o gozo e a violência são sempre indissociáveis, estão em perpétua tensão. Aí está a maturidade (e coragem) de Almodóvar. Aí está também a genialidade na escolha do gênero do filme, um gênero de homens e de morte.
Em uma época na qual uma noção rasa de representatividade positiva importa mais do que qualquer outro aspecto (às vezes negativo, dolorido) dos relacionamentos íntimos (e principalmente de relacionamentos queer), esse filme chega em bom momento. Apesar da falta de sexo explícito ter sido colocada por muitos como sintoma negativo de anacronismo, esse filme é ousado (Almodóvar pode ser propositalmente anacrônico, mas nunca é pudico, principalmente nessa atual fase de sua filmografia).
Contido e elegante (e sempre sensual), o diretor cria uma atmosfera íntima priorizando pequenos movimentos, olhares e gestos. Cada expressão facial do reprimido e severo Ethan Hawke e do emotivo e nostálgico Pedro Pascal é carregada de emoção, de uma mistura dolorida de desejo, repressão e saudade.
A narrativa é simples, econômica e eficiente.
Os antigos amantes (o xerife Hawke e o criador de gado Pascal), que
formaram famílias e viveram suas vidas separadamente, se reencontram e
transam após um jantar repleto de hesitação, tensão sexual e melancolia. Na manhã seguinte, uma cena simples de diálogo expositivo no quarto torna-se algo muito maior, uma tragédia tocante vai tomando forma enquanto é revelada a verdadeira distância que separa Hawke e Pascal - percebemos que esse reencontro só aconteceu por conta de um episódio de violência entre a cunhada de Hawke e o filho de Pascal, e que o destino desses personagens está inevitável e tragicamente marcado pelo conflito, pela violência (e é esse próprio abismo que faz com que todos os seus gestos sejam carregados de desejo). Hawke precisa prender o filho de Pascal, e não se sabe se Pascal está mais interessado em salvar seu filho ou em ficar com Hawke. Por sua vez, o xerife recusa qualquer avanço, qualquer afeto por parte de Pascal (no início da cena, Hawke até se esconde de Pascal, quando fica submerso por completo na água da banheira).
A violência, portanto, é o
pretexto para o reencontro dos dois amantes, e esse pretexto cobre como
um véu todas as relações ali. Pretexto esse que aproxima os personagens quando eles se entregam, e que os afasta quando eles se reprimem. Os antigos amantes, seminus e frágeis, ainda lidando (ou evitando lidar) com os eventos da noite anterior, terminam se expondo além da conta, e por isso logo voltam a assumir seus respectivos papéis e a vestir suas fantasias. Pascal e Hawke partem separados em busca do filho de Pascal.
Quando, no final do filme, o impasse a três é formado, a tensão é palpável. Hawke, Pascal e seu filho entram em um clássico mexican standoff. É impossível dizer o que ocorrerá a seguir, muito difícil prever as ações e reações desses personagens absolutamente perdidos entre a lei e o desejo. Aí está presente o máximo do erotismo e o máximo da violência. A luta física entre Hawke e o garoto remete ao flashback dos dois amantes, no qual eles rolam no chão juntos, embriagados e transbordando desejo. Tudo é morte, principalmente na experiência erótica, que consiste na entrega total (e na abdicação dos papéis sociais, no caso desses personagens gays de um western).
Estranha Forma de Vida é curto, simples, de estrutura facilmente assimilável, mas com muita sensibilidade cênica e riqueza temática. É uma pequena joia de um diretor no auge da maturidade, mais econômico e contido do que no passado mas ainda transgressor e curioso. Preocupado com a construção, Almodóvar faz em 30 minutos o que muitos diretores não conseguem fazer em duas horas. Ainda dá tempo de assistir ao filme nos cinemas. A entrevista com Almodóvar que acompanha o curta nas exibições de tela grande, apesar de simples e talvez extensa demais, é divertida e reveladora.







