Em Cannes, Wim Wenders colocou vários cineastas sozinhos com uma câmera no quarto 666, para que cada um falasse do futuro do cinema. A verdadeira vitória de Wim Wenders aqui é criar um dispositivo tão simples que permite a cada cineasta fazer da sua seção um pequeno curta-metragem, moldar a fala ao longo do curto espaço de tempo tempo de maneira realmente artística, que no melhor dos casos consegue fugir ao máximo do formato (a primeira vista o único possível) de "entrevista jornalística" e entrega algo completamente novo (Godard é o melhor exemplo). Uma janela que permite diferenciar cineastas que realmente pensam a própria vida e o próprio mundo (para além do cinema como instituição ou religião, como o grande Herzog, que não se importa com o debate da maneira que é colocado por Wim Wenders, fechado em si mesmo) dos Spielbergs da vida (o mesmo tão cego e encastelado que chega a ser cômico) e dos terceiro-mundistas, para quem perguntas-máximas do tipo "o cinema está acabando?" tem outra conotação, outros graus de importância, de significado.
