quarta-feira, 27 de julho de 2022

Crítica - Elvis (2022, dir. Baz Luhrmann)

Baz Luhrmann é o cineasta do exagero, do espetáculo visual sempre a mil por hora. Funciona em Moulin Rouge (2001), coeso, divertidíssimo e caótico. Não funciona no Grande Gatsby de 2013, onde nem o charme de DiCaprio salva duas horas de puro tédio. O problema é simples - quando tudo é grandioso e épico, nada é. Quando o filme todo consiste de travellings complicadíssimos em toda cena, quando não há o mínimo esforço de tensão e relaxamento, a sensação que predomina sobre todas as outras quando as luzes do cinema acendem é a de cansaço. Para Baz, muitas vezes, a prioridade é a escala do filme, o tamanho dos cenários. Há uma necessidade constante de movimentos de câmera rebuscados sem muito propósito. Por duas horas e meia, em Gatsby, a forma tenta como que compensar o conteúdo, como se isso fosse necessário.

Elvis, o mais novo "épico" de Baz, acaba caindo mais ou menos no meio do espectro Moulin Rouge - Grande Gatsby. É uma experiência cansativa, os exageros visuais e travellings chamativos permeiam o filme todo. Ainda assim, há momentos nos quais a energia que Baz traz é muito bem-vinda. Eu diria que o primeiro ato é até bem ritmado - e culmina em uma cena na qual a música popular do blues e o gospel, as duas principais influências de Elvis, chegam nos ouvidos do garoto pela primeira vez. É uma das cenas mais enérgicas e bem construídas do ano. As performances de Elvis, sua rebeldia, sua angústia, tudo é acentuado muito bem. Aqui, é possível sentir o poder das músicas muito mais do que em certas cinebiografias recentes de cantores importantes.

Do ponto de vista narrativo, Elvis também alcança lugares interessantes. A questão racial que cerca a biografia do Rei é muito bem abordada, e ocupa até bastante tempo de tela no filme- as aparições de personagens como B.B King e Little Richard são destaque. O filme é narrado por um Colonel Parker na defensiva, extremamente cartunesco e maléfico, interpretado por Tom Hanks. Essa escolha de ponto de vista, que quase nunca é respeitada para além da própria narração, também é feliz, e difere Elvis de roteiros absolutamente entediantes como Bohemian Rhapsody (2018) e até Rocketman (2019) .

O estilo "musical jukebox", tão marcante em Moulin Rouge, aqui raramente tira o foco de Elvis e da música do Rei e de seus contemporâneos - está aqui para realçar a própria energia do artista e trazer um ar despretensiosamente moderno para o filme (não há a vontade de recriar a atmosfera dos anos 50 nos E.U.A de maneira tradicional, mas sim de exemplificar a ebulição cultural nessa época e local com remixes de artistas contemporâneos, do século XXI).

Ainda destaco aqui a performance linda de Austin Butler como Elvis Presley. Antes de assistir ao filme, confesso que não esperava muito dele, apesar de sua divertida ponta em Era uma vez em Hollywood (2019), de Tarantino. Austin com certeza carrega o filme durante seus trechos mais exaustivos, e pode até ser peça importante em manter o legado de Elvis vivo por isso (!). Atuações com essa paixão fazem a diferença, e não espero menos do que algumas indicações para esse garoto na temporada de premiações.

Enfim, recomendo o filme. Apesar da fadiga gerada pelo estilo implacável de Baz e do miolo meio tedioso, essa é uma cinebiografia musical muito mais divertida e interessante do que outras que vimos nesses últimos anos - e que vale a pena ser vista e compartilhada. Se para alguns cinéfilos mais radicais o cinema de Baz é um problema a ser combatido, digo que esse filme atenua isso bastante, para dizer o mínimo.


domingo, 10 de julho de 2022

Crítica - Crimes of the Future (2022, dir. David Cronenberg)

Crimes of the Future (o de 2022) é um grande filme. 

Chega aos cinemas brasileiros nesse mês de julho, graças a Mubi e a O2Play. O retorno de David Cronenberg, lançado em Cannes esse ano, conta com performances ótimas de Viggo Mortensen e Léa Seydoux (cuja presença acabo elogiando em todos os filmes nos quais ela participa), e se passa num futuro muito diferente do que é representado na maioria dos filmes mainstream - um futuro muito tecnológico mas extremamente orgânico, visceral. Os elementos cênicos mais representativos dessa estética são as cadeiras e camas projetadas pela empresa Formas de Vida.

Não há mais dor - a humanidade está livre disso, mas as consequências logo aparecem, tanto na cultura quanto na própria fisiologia humana. Em um mundo completamente anestesiado mas hegemonicamente sombrio, o êxtase (sexual e artístico) passa a vir com a mutilação, com o corte, uma tentativa desesperada de achar significado ou de sentir algo "real", visceral.  A partir desse tema, somos apresentados aos artistas performáticos Saul (Viggo) e Caprice (Léa), cujo espetáculo consiste na cirurgia de misteriosos órgãos novos que aparecem dentro de Saul. Os dois acabam envolvidos em uma trama misteriosa, detetivesca, que envolve os supostos agentes governamentais Wippet e Timlin (que buscam catalogar os novos órgãos que estão surgindo nessa evolução precoce da espécie humana), além de um misterioso grupo underground afetado por um pós-lamarckismo - características adquiridas por fatores externos são hereditários (!) e parece que a humanidade caminha para digerir plástico (!). Saul deve aceitar esse destino evolutivo e parar de remover seus órgãos em performances artísticas?

Ao longo dessa peculiar trama Cronenberg insere lenta e elegantemente todos os seus conceitos e questionamentos sociais (afinal, é o autor de Videodrome) na construção desse mundo bizarro no qual habitam Saul e Caprice. Há críticas ao desejo obsessivo por cirurgias plásticas, à pretensão vazia de pseudoartistas, reflexões sobre o propósito e limites da arte, sobre sexo e intimidade. Tudo é inserido cuidadosamente na trama e na construção atmosférica desse futuro assustador. É notável quanta atmosfera pode ser sugerida em cenas de conversa expositiva, de simples planos e contraplanos, mas sempre muito bem iluminados e ritmados.

 
Apesar de ser um filme de Cronenberg que lida com a mutilação dos corpos (a exploração da beleza interior, como dizem os personagens), o choque do gore não é tão presente. É um horror mais slow burn, que vem com o significado mais profundo de cada corte, de cada mutilação, nesse mundo anestesiado e curioso por esse novo êxtase, esse novo sexo. Um horror mais existencial, que permanece conosco ao longo de todo o filme, enquanto tentamos desvendar a complexa trama. De vez em quando, esse horror é até misturado cuidadosamente com sensualidade, como nas ótimas performances artísticas dos personagens principais. Quanto mais pensamos sobre o que está acontecendo, mais significativos são as cirurgias extremamente gráficas.

Além disso tudo, ainda é um filme bem-humorado, apesar da atmosfera sombria permanecer constante, com a linda trilha sonora de Howard Shore. Quem achou que a já icônica fala "Cirurgia é o novo sexo" é somente um não-tão-sutil comentário social muito se engana - em um dos momentos mais inesperados do filme, quando as coisas começam a esquentar entre Kristen Stewart e Viggo Mortensen, o artista diz: "não sou tão bom no antigo sexo".  Momentos de leveza desse tipo são muito bem-vindos e nunca destoam demais do resto do filme.

Engraçado, sexy, assustador, com conceito e forma lindamente mesclados, e muito bem ritmado. É daqueles filmes pra ver e rever, para sentir o escorrer das imagens e para tentar desvendar o significado de cada elemento e aforismo. Esse é o Crimes of the Future de 2022. 

Uma performance de dança a mais de Klinek (o homem-orelha) não faria mal, apesar de ser lixo escapista, de acordo com Saul.