Baz Luhrmann é o cineasta do exagero, do espetáculo visual sempre a mil por hora. Funciona em Moulin Rouge (2001), coeso, divertidíssimo e caótico. Não funciona no Grande Gatsby de 2013, onde nem o charme de DiCaprio salva duas horas de puro tédio. O problema é simples - quando tudo é grandioso e épico, nada é. Quando o filme todo consiste de travellings complicadíssimos em toda cena, quando não há o mínimo esforço de tensão e relaxamento, a sensação que predomina sobre todas as outras quando as luzes do cinema acendem é a de cansaço. Para Baz, muitas vezes, a prioridade é a escala do filme, o tamanho dos cenários. Há uma necessidade constante de movimentos de câmera rebuscados sem muito propósito. Por duas horas e meia, em Gatsby, a forma tenta como que compensar o conteúdo, como se isso fosse necessário.
Elvis, o mais novo "épico" de Baz, acaba caindo mais ou menos no meio do espectro Moulin Rouge - Grande Gatsby. É uma experiência cansativa, os exageros visuais e travellings chamativos permeiam o filme todo. Ainda assim, há momentos nos quais a energia que Baz traz é muito bem-vinda. Eu diria que o primeiro ato é até bem ritmado - e culmina em uma cena na qual a música popular do blues e o gospel, as duas principais influências de Elvis, chegam nos ouvidos do garoto pela primeira vez. É uma das cenas mais enérgicas e bem construídas do ano. As performances de Elvis, sua rebeldia, sua angústia, tudo é acentuado muito bem. Aqui, é possível sentir o poder das músicas muito mais do que em certas cinebiografias recentes de cantores importantes.
Do ponto de vista narrativo, Elvis também alcança lugares interessantes. A questão racial que cerca a biografia do Rei é muito bem abordada, e ocupa até bastante tempo de tela no filme- as aparições de personagens como B.B King e Little Richard são destaque. O filme é narrado por um Colonel Parker na defensiva, extremamente cartunesco e maléfico, interpretado por Tom Hanks. Essa escolha de ponto de vista, que quase nunca é respeitada para além da própria narração, também é feliz, e difere Elvis de roteiros absolutamente entediantes como Bohemian Rhapsody (2018) e até Rocketman (2019) .
O estilo "musical jukebox", tão marcante em Moulin Rouge, aqui raramente tira o foco de Elvis e da música do Rei e de seus contemporâneos - está aqui para realçar a própria energia do artista e trazer um ar despretensiosamente moderno para o filme (não há a vontade de recriar a atmosfera dos anos 50 nos E.U.A de maneira tradicional, mas sim de exemplificar a ebulição cultural nessa época e local com remixes de artistas contemporâneos, do século XXI).
Ainda destaco aqui a performance linda de Austin Butler como Elvis Presley. Antes de assistir ao filme, confesso que não esperava muito dele, apesar de sua divertida ponta em Era uma vez em Hollywood (2019), de Tarantino. Austin com certeza carrega o filme durante seus trechos mais exaustivos, e pode até ser peça importante em manter o legado de Elvis vivo por isso (!). Atuações com essa paixão fazem a diferença, e não espero menos do que algumas indicações para esse garoto na temporada de premiações.
Enfim, recomendo o filme. Apesar da fadiga gerada pelo estilo implacável de Baz e do miolo meio tedioso, essa é uma cinebiografia musical muito mais divertida e interessante do que outras que vimos nesses últimos anos - e que vale a pena ser vista e compartilhada. Se para alguns cinéfilos mais radicais o cinema de Baz é um problema a ser combatido, digo que esse filme atenua isso bastante, para dizer o mínimo.

