terça-feira, 27 de junho de 2023

Bela e Bandida (Montana Belle, 1952, dir. Allan Dwan)

Publicado originalmente no catálogo Faroeste no feminino, da Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro. Disponível aqui.

Montana Belle, filme tardio do prolífico Allan Dwan, diretor desde os anos 1910 (como André Bazin disse a respeito do western, “suas origens não se confundem com as do próprio cinema?”), coloca na ribalta Jane Russell – ela é a força motriz absoluta do filme, mas entre um Sternberg (Macao, 1952) e um Hawks (Gentlemen Prefer Blondes, 1953), essa performance acabou por não receber a devida atenção.

Belle Starr, livremente inspirada em uma bandida real e nas ficções que surgiram a seu respeito, é introduzida no início do filme de maneira muito simples – a câmera não busca enaltecê-la. Não há um travelling expressivo como em Stagecoach (John Ford, 1939), na apresentação icônica de John Wayne. No lugar, há planos conjuntos e médios de Belle ao lado dos foras da lei que a salvaram de uma morte certa. É uma personagem subestimada em seu meio, uma mulher de passado duvidoso e sombrio, e pela qual os bandidos que a resgataram podem brigar violentamente, enciumados.

Ao longo do filme, porém, sua influência sobre os demais personagens da trama vai se revelando mais forte e decisiva, e sua presença passa a ser a cada cena maior e mais central. Se nos westerns há o conflito permanente entre a lei e o crime (e as diferenças entre os bandidos e os agentes da ordem vão ficando cada vez mais turvas e os lugares comuns dos atores sociais do oeste vão sendo subvertidos), a Belle Starr de Jane Russell chega para desestabilizar por completo os grupos sociais que compõem o clássico universo do gênero. A caterva de bandidos liderada pelos irmãos Dalton é rachada ao meio e a própria Belle, recém-acolhida na gangue, emerge como líder da facção dissidente. Ao tentar chegar primeiro a um tesouro de milhares de dólares, o bando de Belle Starr acaba se infiltrando em um saloon mantido por um inexpressivo e cansado George Brent, por sua vez decidido a capturar os irmãos Dalton. A beleza estonteante de Jane Russell faz com que o coração dele amoleça – sua prioridade agora é a bela bandida, pouco importam os crimes passados e futuros.

Uma característica marcante da Belle Starr de Russell é sua versatilidade dentro da lógica do mundo no qual habita. No início ela se disfarça de homem durante um roubo, com o já estabelecido e icônico visual andrógino de paletó e calças já prenunciando Joan Crawford em Johnny Guitar, de Nicholas Ray. Depois, quando se torna sócia (sob um pseudônimo) do saloon de George Brent com o objetivo de roubá-lo, ela se transforma subitamente em uma encantadora vedete de cabelo louro e vestes azuis como que entre elegantes e extravagantes, com direito a dois números musicais (!) que solidificam a personagem como figura que controla os rumos do próprio filme. Ela rouba a atenção para si, e isso se manifesta na própria estrutura de Montana Belle, digna de nota.

Aos vinte minutos, há uma grande e impressionante cena de perseguição a cavalo envolvendo Belle, a única no filme. Tendo superado esse perigo mortal e comum aos heróis e vilões do western desde sua concepção, Belle parte para sua aventura infiltrada no saloon. As mudanças de cenário, ritmo e foco narrativo indicam que o que importa aqui não é mais a ação, mas o jogo de relações entre cada personagem e Belle (sempre no centro de tudo). Ao final, o confronto armado tem muito menos destaque do que a redenção de Belle Starr junto de seu par nada à altura. Bob Dalton, o irmão mais obcecado por Belle, e Mac, dissidente da gangue e aliado da moça na maior parte do filme (e obviamente também apaixonado por ela), têm seu trágico fim resolvido da maneira mais seca e pouco lisonjeira possível – eles estão de costas para a câmera e longe dela quando caem no chão durante o rápido clímax. O mesmo ocorre com o desconfiado índigena Ringo, cujo rosto quase não se vê durante o tiroteio. Belle começa subestimada e ao longo do tempo toma controle completo do filme, fazendo com que nada mais importe a não ser sua redenção melancólica.

A mise en scène de Dwan, mais sutil, utiliza closes de maneira econômica e em momentos cirúrgicos, como na cena em que George Brent descobre, por meio de uma troca de olhares, que a mocinha que está jogando em seu saloon é a mesma figura que roubou o estabelecimento anteriormente. Esse momento de troca de olhares, no qual uma compenetrada Belle Starr cobre seu rosto com as mãos à semelhança de sua bandana de bandida, fica marcado como sendo o mais próximo que Allan Dwan chega de seus personagens com a câmera no filme. Um momento significativo e memorável. Outros elementos do filme chamam a atenção, como o cômico mas importante papel de Andy Devine, figura conhecida dos westerns, que traz uma leveza bem-vinda. O processo de cor pelo qual a película passou, que confere às imagens um tom desbotado já descrito por muitos outros, também auxilia na identidade visual distinta do filme. Completamente subestimado e muito feliz na exaltação gradual de uma Jane Russell versátil, no seu auge, Montana Belle utiliza de sutilezas na linguagem e de liberdade na estrutura para criar um western notável, muitas vezes por motivos inesperados.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Crítica - Ostinato (2021, dir. Paula Gaitán)

A primeira parte do filme, abertamente mais convencional, baseia-se numa relação de acréscimo (vai além do complemento) entre o que Arrigo fala e o que a câmera enquadra. Enquanto Arrigo discorre sobre grandes compositores e sobre seu próprio processo criativo, a câmera se permite enquadrar a cidade de São Paulo e trazer à tona o elemento urbano, tão presente na obra do músico mas que ele não chega a mencionar diretamente.
Em outro momento, ela passeia em uma bela panorâmica pelo piano que Arrigo toca, enfatizando o aspecto do acústico, mecânico da obra. Os enquadramentos e reenquadramentos agregam muito do ponto de vista discursivo.

Depois, quando Paula Gaitán intervém de maneira direta, causando uma ruptura abertamente incômoda na estrutura do filme, tudo muda.
Vemos em tempo real uma falha, uma incomunicabilidade absurda no diálogo entre os dois (sobre o termo 'escatologia'). Enquanto Arrigo está falando sobre algo direto e objetivo, Paula Gaitán leva a discussão para outro lado, e a câmera permanece em um Arrigo Barnabé quieto, mas extremamente atencioso.
A intervenção da diretora, que poderia parecer de mau gosto, acaba revelando um lado de Arrigo que nunca seria revelado pela primeira parte do filme, mais clássica. Vemos um Arrigo ouvinte, atencioso a cada palavra de Gaitán, mas incapaz de formular exatamente o que ele quis dizer antes. Nesse descompasso há uma intimidade singular, muito valiosa. Não há uma distração, um descuidado com o objeto do filme (Arrigo Barnabé), um confronto que deveria ter sido cortado. Há uma valorização dos olhos expressivos do artista como nunca seria possível em momentos nos quais ele domina o assunto sozinho.