domingo, 6 de fevereiro de 2022

Notas da semana - Titane, Festival do Amor, Spencer, A Filha Perdida (2020/21)

Aqui vão uns pensamentos meio soltos sobre alguns dos filmes recentes que vi nas últimas semanas na tentativa de tirar o atraso. 

Festival do Amor (dir. Woody Allen)


Wallace Shawn é Rifkin - um divertido e cínico ex-professor de cinema (a caracterização é, na realidade, o próprio Woody Allen) que suspeita, durante uma visita a um festival, de um caso de sua esposa com um jovem diretor pretensioso interpretado por Louis Garrel. Durante a estadia em San Sebastian, o solitário Rifkin vive reclamando do estado do cinema atual (principalmente sobre os temas óbvios tratados como se fossem extremamente originais por diretores pouco interessados nos grandes mestres do passado).

O olhar cansado sobre o presente e a preferência por um passado idealizado (e pelas grandes artes) são temas comuns na filmografia recente do Woody Allen (vide o hit and miss Meia-Noite em Paris [2011]) e poderiam (com certa razão, na minha opinião) ser tratados com amargura pelo diretor. 

Mas o Festival do Amor foge do ressentimento fácil e da nostalgia arrogante, principalmente ao aproximar Rifkin (ainda paranoico e incomodado com o caso de sua esposa) de uma médica cinéfila - a velha hipocrisia do corno traíra traz um elemento muito cômico ao protagonista e acaba relativizando tematicamente suas próprias opiniões. Ainda assim, é claro, o veredito pesa a favor de Rifkin, que termina em paz consigo mesmo.

No fim, a moral parece ser: ´´to each his own, mas cá entre nós, os grandes cineastas do passado continuam sendo os melhores, né?´´. Justo o suficiente.

Sim, gostei bastante. É bem engraçado (o sarcasmo de Wallace Shawn ao comentar o pacifismo do filme de guerra de Garrel é impagável), simples no visual (quem sabe até demais) e despretensioso. As reconstituições minimalistas de filmes como 8 e 1/2 e O Sétimo Selo (Cristoph Waltz interpreta a Morte) são bem-vindas também. 

Um breve comentário sobre a injusta recepção negativa do filme: é melhor que Meia-Noite em Paris, que muitos gostam.

Spencer (dir. Pablo Larrain)


Admito que fiquei desapontado com o filme, que retrata uma princesa Diana no ápice de um colapso psíquico em um Natal. A impressão que fica é que esse é um dos filmes dirigidos pelo Louis Garrel de Festival do Amor.

Kristen Stewart acerta nas poses tanto quanto Natalie Portman em Jackie. A performance dela é o ponto alto, chega a valer o ingresso. Pena que nem os visuais lavados e sem contorno (eu gosto) de Pablo Larrain salvam o roteiro monótono e solto. Não há vislumbre de felicidade, de liberdade para Diana fora do contexto no qual ela já está inserida, mas também não há suficiente foco no sufoco causado na princesa de Gales pela família real.

Começa bem - a notórica bulímica deve se pesar ao chegar na casa de campo e depois ao sair ( é uma tradição da família real na qual o aumento de peso seria prova do aproveitamento do Natal). Depois, cenas mal ritmadas de sofrimento que poderiam ser encaixadas de maneira aleatória no miolo do filme imperam. O fim de semana não parece piorar ao longo do tempo, a briga com o príncipe Charles e a frieza da rainha não mexem com Diana (e com o público) e não funcionam como fortes empurrões para um inevitável abismo. A ambição é o intimismo, mas o resultado acaba sendo a exploração constante e de mal gosto do sofrimento infinito da princesa. 

O filme melhora no final, quando mistura passado e presente (naquela casa, é tudo a mesma coisa, como diz Diana). Vemos a princesa correr sem rumo, reviver catarses de infância e transformar-se em Ana Bolena num fluxo bem bacana, bem musicado e honesto. Diana acaba se libertando, e decide confrontar as tradições da família ao levar William e Harry para a cidade em seu Porsche. Tudo isso é bacana, mas essa explosão de memórias e liberdade tem menos efeito depois de tantos minutos com pouca progressão.

Acho que fui muito agressivo aqui, seria desonesto dizer que o filme é simplesmente ruim. Mas The Crown, a série, acaba contando essa história melhor. E com um elenco de apoio mais interessante.

A Filha Perdida (dir. Maggie Gyllenhaal)


Nada mal a estreia na direção de longas da atriz Maggie Gyllenhaal, que conta com performance ótimas de duas das minhas atrizes favoritas dos últimos anos - Olivia Colman (de A Favorita) e Jessie Buckley (do sensacional Estou Pensando em Acabar com Tudo).

Os pequenos incômodos durante as férias de uma professora universitária em uma Grécia paradisíaca acabam dando vazão a um passado conturbado, de abandono das próprias filhas após períodos de sufoco materno. Acho o roteiro bem lapidado, principalmente nos primeiros vinte minutos. 

A personagem de Olivia Colman é difícil. O fardo materno, apesar de explicar sua ausência, não justifica as ações da personagem. O filme abraça essa área cinza, convida cada um a julgar Olivia Colman (e Jessie Buckley, sua versão mais jovem) como preferir.

Não tenho mais nada a dizer, o que diz muito sobre o filme também.

Titane (dir. Julia Ducournau)


Para quem viu o filme: tente descrever para alguém o enredo de Titane sem receber em troca um olhar de aversão e ter que se justificar dizendo que o filme é divertido pra caramba. É uma tarefa difícil. 

Após incendiar a casa de seus pais, a dançarina serial killer sexy e sexualmente confusa (!) Alexia se passa pelo filho de um bombeiro viciado, que se recusa aceitar a realidade. Ah, ela deve esconder a gravidez que a corrói por dentro (um bebê-metálico-cadillac). Uau.

Demorei para ver o ganhador da Palma de Ouro porque não gostei de RAW (2016), da mesma diretora. O film canibalisme é muita apelação pra pouca diversão. Grandes temas, pouca entrega na prática. A exemplo de David Lynch, não vou elaborar.

Dito isso, Titane é sensacional. Visceral no tratamento do corpo humano (é violento nos assassinatos, na automutilação e na gravidez bizarra de Alexia/Adrien), é envolto também por uma camada de onirismo metálico que deixa tudo muito divertido. Descrição vaga, mas surpreendente na sinceridade. Julia Ducournau equilibra muito bem ternura, comédia, tensão e o bizarro num filme primeiramente divertido e que a cada momento parece que vai explodir em violência (não gratuita e vazia, como muitas vezes em RAW, mas inusitada e impactante).

Ótimo em tudo.

Lulu

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