Crimes of the Future (o de 2022) é um grande filme.
Chega aos cinemas brasileiros nesse mês de julho, graças a Mubi e a O2Play. O retorno de David Cronenberg, lançado em Cannes esse ano, conta com performances ótimas de Viggo Mortensen e Léa Seydoux (cuja presença acabo elogiando em todos os filmes nos quais ela participa), e se passa num futuro muito diferente do que é representado na maioria dos filmes mainstream - um futuro muito tecnológico mas extremamente orgânico, visceral. Os elementos cênicos mais representativos dessa estética são as cadeiras e camas projetadas pela empresa Formas de Vida.
Não há mais dor - a humanidade está livre disso, mas as consequências logo aparecem, tanto na cultura quanto na própria fisiologia humana. Em um mundo completamente anestesiado mas hegemonicamente sombrio, o êxtase (sexual e artístico) passa a vir com a mutilação, com o corte, uma tentativa desesperada de achar significado ou de sentir algo "real", visceral. A partir desse tema, somos apresentados aos artistas performáticos Saul (Viggo) e Caprice (Léa), cujo espetáculo consiste na cirurgia de misteriosos órgãos novos que aparecem dentro de Saul. Os dois acabam envolvidos em uma trama misteriosa, detetivesca, que envolve os supostos agentes governamentais Wippet e Timlin (que buscam catalogar os novos órgãos que estão surgindo nessa evolução precoce da espécie humana), além de um misterioso grupo underground afetado por um pós-lamarckismo - características adquiridas por fatores externos são hereditários (!) e parece que a humanidade caminha para digerir plástico (!). Saul deve aceitar esse destino evolutivo e parar de remover seus órgãos em performances artísticas?
Ao longo dessa peculiar trama Cronenberg insere lenta e elegantemente todos os seus conceitos e questionamentos sociais (afinal, é o autor de Videodrome) na construção desse mundo bizarro no qual habitam Saul e Caprice. Há críticas ao desejo obsessivo por cirurgias plásticas, à pretensão vazia de pseudoartistas, reflexões sobre o propósito e limites da arte, sobre sexo e intimidade. Tudo é inserido cuidadosamente na trama e na construção atmosférica desse futuro assustador. É notável quanta atmosfera pode ser sugerida em cenas de conversa expositiva, de simples planos e contraplanos, mas sempre muito bem iluminados e ritmados.
Além disso tudo, ainda é um filme bem-humorado, apesar da atmosfera sombria permanecer constante, com a linda trilha sonora de Howard Shore. Quem achou que a já icônica fala "Cirurgia é o novo sexo" é somente um não-tão-sutil comentário social muito se engana - em um dos momentos mais inesperados do filme, quando as coisas começam a esquentar entre Kristen Stewart e Viggo Mortensen, o artista diz: "não sou tão bom no antigo sexo". Momentos de leveza desse tipo são muito bem-vindos e nunca destoam demais do resto do filme.
Engraçado, sexy, assustador, com conceito e forma lindamente mesclados, e muito bem ritmado. É daqueles filmes pra ver e rever, para sentir o escorrer das imagens e para tentar desvendar o significado de cada elemento e aforismo. Esse é o Crimes of the Future de 2022.
Uma performance de dança a mais de Klinek (o homem-orelha) não faria mal, apesar de ser lixo escapista, de acordo com Saul.

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