Esse documentário sobre Rivette dirigido pela consagrada Claire Denis faz parte da série Cinéma de Notre Temps (diretores filmando diretores) e é divido em duas partes: dia e noite.
O filme conta com a colaboração de Serge Daney, gigantesco crítico de cinema que mudou os rumos da Cahiers du Cinéma depois do conturbado período político do início dos anos 70. Durante todo o filme ele entrevista, ou conversa, com Jacques Rivette, considerado o mais combativo e radical dos críticos da Cahiers pré-Nouvelle Vague (lembremos o episódio da saída de Rohmer da revista).
A dinâmica dos dois é bem-humorada, o crítico Daney não tem medo de cortar Rivette e muitas vezes tem ideias muito mais sólidas sobre o próprio cinema de Rivette do que o diretor - o papel dele aqui é quase de analista, além de instigador. Rivette, o líder, que avançava contra a polícia durante a crise da cinemateca francesa que prenunciava as revoltas estudantis de 68, aparece aqui como um homem tímido, inseguro, solitário como Tolstói. Muitas vezes, ele olha pela janela do café ao invés de manter qualquer tipo de contato visual com Daney, ou levanta os ombros em sinal de modéstia enquanto seus olhos procuram alguma coisa enquanto ele pensa, sem pressa, sobre sua próxima resposta.
Os dois falam sobre a vida de Rivette, contam algumas histórias da época da Nouvelle Vague, discutem características de seu cinema (como a importância do corpo inteiro, por exemplo, os poucos closes), e ainda falam sobre práticas de trabalho, relacionamento com os atores, sobre teoria dramática e sobre grandes filmes. Tudo muito revigorante e interessante.
A câmera de Denis é viva. Nunca distraindo do objeto do filme, que é Jacques Rivette, os belos enquadramentos e movimentos de câmera da diretora ressaltam sempre as próprias conversas, mesmo quando passeiam por Paris. É uma câmera intimista.
É um belo filme - um registro bem gravado de conversas importantes e únicas, que vêm do lugar mais curioso e sincero tanto de Daney quanto de Rivette (e de Denis também). Ao final, é quase impossível não querer assistir Pont du Nord, ou Out 1, ou L'amour Fou, filmes comentados e mostrados no documentário.


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