A primeira parte do filme, abertamente mais convencional, baseia-se numa relação de acréscimo (vai além do complemento) entre o que Arrigo fala e o que a câmera enquadra. Enquanto Arrigo discorre sobre grandes compositores e sobre seu próprio processo criativo, a câmera se permite enquadrar a cidade de São Paulo e trazer à tona o elemento urbano, tão presente na obra do músico mas que ele não chega a mencionar diretamente.
Em outro momento, ela passeia em uma bela panorâmica pelo piano que Arrigo toca, enfatizando o aspecto do acústico, mecânico da obra. Os enquadramentos e reenquadramentos agregam muito do ponto de vista discursivo.
Depois, quando Paula Gaitán intervém de maneira direta, causando uma ruptura abertamente incômoda na estrutura do filme, tudo muda.
Vemos em tempo real uma falha, uma incomunicabilidade absurda no diálogo entre os dois (sobre o termo 'escatologia'). Enquanto Arrigo está falando sobre algo direto e objetivo, Paula Gaitán leva a discussão para outro lado, e a câmera permanece em um Arrigo Barnabé quieto, mas extremamente atencioso.
A intervenção da diretora, que poderia parecer de mau gosto, acaba revelando um lado de Arrigo que nunca seria revelado pela primeira parte do filme, mais clássica. Vemos um Arrigo ouvinte, atencioso a cada palavra de Gaitán, mas incapaz de formular exatamente o que ele quis dizer antes. Nesse descompasso há uma intimidade singular, muito valiosa. Não há uma distração, um descuidado com o objeto do filme (Arrigo Barnabé), um confronto que deveria ter sido cortado. Há uma valorização dos olhos expressivos do artista como nunca seria possível em momentos nos quais ele domina o assunto sozinho.
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