sexta-feira, 1 de março de 2024

O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968, dir. José Mojica Marins)

 

 

    Uma rara sessão em 16mm de um clássico de Mojica (conhecido principalmente pela censura aplicada pela ditadura à diversas cenas chave, muito bem descritas por Jairro Ferreira em seu texto sobre o filme) ocorreu no cine Bijou nessa última quinta-feira. Trata-se de uma antologia composta por três curtas de terror muito distintos entre si, mas que ligam-se tematicamente pela retratação de um mundo infernal, no qual a violência está em todo lugar, em diversos níveis e que sempre triunfa na sua expressão sádica. 
    Os dois primeiros curtas lidam de maneira mais fabular com essa violência onipresente - o primeiro é uma comédia mórbida onde o sádico encontra o sádico (os dois predadores viram presa).  Além desse encontro que não deveria ter acontecido (portanto, uma comédia), a construção do tema já começa na erótica (e aparentemente não assustadora) cena inicial, que se passa numa boate. Diversos homens e mulheres dançam freneticamente, mãos caminham por debaixo de saias, garotas acariciam suas meias calças e soltam suas cinta-ligas. Também presentes na boate, como que na espreita mas de maneira insuspeita, estão os homens que mais tarde estuprarão as garotas da "casa de bonecas" que dá o título ao curta.  O terror de Mojica sempre foi o terror do real.
    O segundo curta, o mais interessante, revela a violência já presente (e velada) na martirização decorrente do desejo idealizado, romantizado - e que culmina da cena de necrofilia. O homem miserável apenas observa, de longe, o objeto de seu desejo - uma mocinha, durante um bom tempo. A primeira cena de violência explícita ocorre sob o olhar passivo do homem - uma mulher, provavelmente enciumada, esfaqueia brutalmente a mocinha durante seu casamento, fazendo com que ela role pelos degraus. Novamente, a violência é onipresente. Após profanar o caixão e apenas acariciar a mocinha, de maneira quase delicada, o homem parece satisfeito, mas o pior ainda está por vir.  O terror (que no primeiro curta é muito mais sensacional e absurdo) aqui vem da profunda sensação de nojo, além da atmosfera sombria, mas cotidiana e romântica, do longo funeral da noiva (no qual o homem nem consegue estar presente).
    No terceiro, Mojica aparece como Zé do Caixão e leva a violência inescapável do mundo até as últimas consequências - nos jogos intelectuais que servem de desculpa para o sadismo de seu personagem a degradação da natureza humana é sua própria libertação, equiparada inclusive à Criação bíblica. Aqui, o terror do cotidiano é inseparável da iconicidade de terror mais clássica (as aranhas, por exemplo) e da igreja (as imagens fortes da cruz estão presentes ao longo dos dois últimos filmes), uma combinação com efeito plástico notável.
    É mau gosto até o final, como a violência desmedida do mundo também é. Evitar mostrar (como fez a ditadura militar ao cortar o filme) ou mostrar de maneira palatável (como fazem muitos cineastas) seria desonesto. Mojica filma de maneira frontal, como poucos hoje fazem - bons e maus cineastas preferem deixar claro como a violência é moralmente condenável da maneira mais didática, infantil e desinteressante possível. Mojica prioriza até o fim a sensação, o mal estar causado pela fisicalidade e economia da mise-en-scène, pela tristeza dos corpos que vão aos poucos entendendo que nesse mundo seu destino não tem como ser outro.

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