segunda-feira, 5 de agosto de 2024

O Sequestro do Papa (2023, dir. Marco Bellocchio)

 É interessante como o Bellocchio, marxista, insere o divino em meio ao cinismo do Poder da Igreja Católica. O divino parece estar presente, rindo de maneira sádica, livrando um padre de um julgamento no qual ele deveria pagar por seus crimes, depois subitamente atacando o papa quando as massas começam a se levantar agressivamente contra a instituição. De alguma maneira, o divino está sempre presente. Pura emoção. A força da "análise dos mecanismos de poder" de Bellocchio vem justamente da aderência, da crença na força desse poder. O ato de cair ao chão, de se prostrar e submeter a Deus e ao papa, recebe especial atenção. Em O Sequestro do Papa, o "prostrar-se" é um ato de tensionamento de poderes ou demonstração de força (a cena da língua no chão), de sacrifício supremo (a cena da janela, no início), de punição divina (o papa tendo um ataque epiléptico e caindo na escada), de revolução (a estátua religiosa caindo no chão quando os populares tomam o templo). Fugindo do grotesco, Bellochio traça, com esse tipo de relação entre os gestos físicos, materiais, as relações de poder ali existentes, e recria a própria mescla cinzenta do brutalmente físico (os pregos de Cristo) com o metafísico (as ambiguidades da imagem, as sombras) que perpetuou o poder católico por tantos anos, e que hoje é ausente até na estética de representações desse tipo. Pasolini teria adorado esse filme.

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