quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Ainda estou aqui (2024, dir. Walter Salles)

Coisas que eu gosto: 

Os dois atores de Marcelo Rubens Paiva, o filho - trazem vida de verdade, sem tanto controle quanto o resto do elenco. Acho as duas performances mais tocantes. 
Toda a sequência que se passa nos anos 90, em São Paulo - acho bem filmada, a luz particularmente melancólica, além de ser o melhor momento de Fernanda Torres no filme, onde o peso do luto se faz sentir em meio ao cotidiano.
A cena da mudança, da casa esvaziada - ainda que viciada na forma (o piano constante que escorre do resto do filme para cá), ainda emociona muito mais do que outros "grandes momentos". A cena termina com uma bonita gravação em super 8 da casa da família Paiva, enquanto o carro dirige para longe, na mesma direção que Rubens Paiva foi levado no início. Bonito.

Por que a Fernanda Montenegro não é mais tratada como uma atriz, e sim como uma instituição? Acho que a cena dela nesse filme está na corda bamba entre o comercial do Itaú e a cena final da Vida Invisível (inclusive, me lembra o comercial até no enquadramento, no foco). Eu queria gostar mais, mas acho que tratar uma das grandes atrizes brasileiras como um monolito da Cultura é limitador com ela própria. Cadê o verdadeiro respeito, para além da Cultura, da adoração publicitária do ícone?

Na linguagem, é um filme da Retomada. Sem muita dramaturgia, mise-en-scène ou espaço para realmente mergulhar na vida ou na sensação daqueles personagens além do diálogo "realista" que, já sabemos, é um pseudo-realismo viciado que não chega lá, uma desculpa para criar diálogos somente pragmáticos e narrativos, que não têm o peso que o filme quer que tenham. Também mergulha-se na vida dos personagens mostrando-os nadando (no mar ou na piscina, outro vício) ou com planos feitos para exibir a direção de arte carregada de Beatles, tropicália, Godard e um esquisito e fora de lugar Jacques Tati. A dinâmica familiar é construída em cenas de festa, com todos dançando alegres, ou com cenas de praia. Já nas cenas melancólicas, música triste no piano a todo momento. Todas essas coisas são, evidentemente, vícios publicitários que substituem qualquer construção realmente densa, qualquer sensação para além da superfície. Se a superfície é, por vezes, tocante (e acaba sendo sim, esse é todo o intuito da publicidade), ela também é covarde, ela recorta a história da família Paiva da maneira mais apolítica possível, seguindo a moral e o "bom gosto" da elite brasileira - o deputado de esquerda não aparece, e sim o engenheiro pai de família. É grife, grife meticulosa e cuidadosa na manutenção da própria sensação de grife, sim, mas não é interessante como cinema, não constrói muita coisa. Não consigo, por exemplo, nem sentir nada durante as cenas de interrogatório.

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