sábado, 5 de abril de 2025

Limonov - O Camaleão Russo (dir. Kirill Serebrennikov)

Publicado no Guia Alt

"Como você pode ver, minha arte andava lado a lado com crime"-  Eduard Limonov (It's Me, Eddie)

A cena mais ousada, formalmente falando, de Limonov - O Camaleão Russo, a nova cinebiografia literária de Kirill Serebrennikov (responsável também por A Esposa de Tchaikovsky), acontece quando Eddie Limonov está vivendo seus anos de poeta maldito pelas ruas de Nova York. Na trilha sonora, escutamos Take A Walk On The Wild Side, canção canônica de Lou Reed, enquanto Eddie conversa com um amante em uma lavanderia. O protagonista reafirma sua grandeza, seus ímpetos marginais e seu desespero (e desprezo) para com tudo o que o mundo espera dele - a crise eterna do escritor, reforçada ao longo de todo o filme. De repente, a música parece ganhar vida - as mulheres da lavanderia mimetizam o famoso coro ("and the colored girls go..."), um trompetista eventualmente acompanha no também icônico solinho, até que estamos quase numa cena musical, e "quase" é a palavra chave. Nada disso funciona muito bem, desde a escolha óbvia da canção (nesse momento do filme, Eddie está vivendo uma fase queer e marginal nas ruas de Nova York, similar à personagem da música), a mesclagem truncada da trilha sonora com os elementos "reais" (o abandono esquisito da diegese), a literalidade dos elementos "inusitados" que surgem (o coro e o trompete), enfim - é a ideia de uma cena que acaba não traduzindo e não gerando nenhuma sensação além de certa frieza. Parece uma tentativa malsucedida de sair da caixinha, de trazer alguma radicalidade ao filme, na maior parte do tempo tão convencional e, justamente por isso, na contramão do seu próprio personagem principal. Em Limonov, a ideia (e a narrativa) triunfa e a sensação (e a cena) fica em segundo plano. 

Eddie Limonov foi um escritor soviético radical, sempre rejeitado tanto na União Soviética quanto nos E.U.A. Goste-se ou não, ele viveu uma vida explosiva, sempre fazendo jus à sua oposição ao status quo. Tinha ideações suicidas, chegou a passar por dificuldades em Nova York, onde se relacionava com todo o tipo de pessoa (de milionários até marginais), alcançou eventual sucesso literário na França e, como se não bastasse, tornou-se o líder revolucionário de um partido nacionalista russo, depois da queda do muro de Berlim e do caos instaurado na Mãe Rússia. Sua prosa poética é simples, raivosa, repleta de imagens vívidas e, no caso dos textos autobiográficos, de muito interesse pelas vidas trágicas que cruzam seu caminho, ainda que por um instante. Eddie Limonov nunca tem nada a esconder, e sua sinceridade muitas vezes choca e repele, para só depois comover.

Alguns relances dessa radicalidade realmente aparecem no filme, mas Serebrennikov está sempre preocupado em avançar a narrativa (que abrange desde a juventude até o fim da vida de Limonov), e prefere não deixar esses (possivelmente muito bons) momentos respirarem. Sejam esses relances tentativas de suicídio violentas ou encontros eróticos intensos, eles são constantemente interrompidos por montagens musicais e jumpcuts desnecessários, que miram algum dinamismo mas acertam somente na monotonia. O que importa aqui é a narrativa de maneira geral, não a eficiência de cada cena. Muita coisa de interessante realmente acontece no filme, mas a encenação em si muitas vezes não o é, e a montagem acaba sendo a pá de cal.

Um pouco antes da já mencionada cena musical, Eddie chega a Nova York com sua namorada e fica, em primeiro momento, fascinado pela suposta liberdade local. É aí que uma travesti diz quase que diretamente para a câmera: "você pode ser o que você quiser". O didatismo desse pequeno momento é de suscitar vergonha: trata-se de uma fala completamente redundante, como se Serebrennikov quisesse resumir toda a cena à sua ideia mais basal e, assim, esvaziar completamente todas as outras possibilidades de construção. Não sentimos essa suposta liberdade, ela é apenas dita - e numa cena simples que claramente já estaria resolvida sem a fala. Talvez houvesse espaço para questionar se a artificialidade dessa cena não é proposital, já dissertando sobre o quanto a liberdade encontrada em solo americano nunca realmente existiu - mas toda a construção do filme atesta contra isso. "Limonov" pode remeter, até certo ponto, ao "Elvis" de Baz Luhrmann, mas o discurso raso e envolto em kitsch de Luhrmann é autoconsciente e muito irônico, enquanto Serebrennikov parece realmente querer impressionar.

Esses problemas apontados, o didatismo infantojuvenil e a escolha por ignorar o potencial de cada cena em favor da narrativa em geral, são vícios comuns em outras cinebiografias contemporâneas. Mas "Limonov" não acerta onde, por exemplo "O Aprendiz", cinebiografia de Trump lançada no ano passado, consegue se sair relativamente bem. A visão que Ali Abbasi apresenta sobre Trump é, mesmo dentro de um filme muito convencional, no mínimo interessante e interessada. Há bastante psicologia e, ao mesmo tempo, frontalidade. Não há medo algum de tentar entender a origem do monstro e, ao mesmo tempo, de mostrar a monstruosidade como ela é. Já em "Limonov", uma estranha sensação de distanciamento do protagonista é inevitável.
 
O filme tem aproximadamente duas horas e vinte minutos e todas as cenas contam com Eddie Limonov, interpretado por um espalhafatoso mas competente Ben Whishaw. Mesmo assim, ao final do filme, sabe-se tanto sobre Limonov quanto no início, apesar de todos os episódios apresentados e que cobrem a maior parte da vida do poeta. Há um desinteresse (ou um medo) evidente de falar sobre os aspectos mais políticos de sua personalidade, tão essenciais para a vida de Limonov. Exemplar disso é o quão curta e estranhamente vaga e abstrata é a sequência do filme dedicada à formação de seu partido paramilitar na Rússia (NBP), ao fim da vida do escritor. Novamente, quase tudo é apresentado por meio de montagens frenéticas e simplistas, e o nome "Putin" jamais é mencionado em cena.
 
Arrisco que não há quase nenhum interesse em Limonov para além de um certo exotismo, e talvez essa seja a causa dos deslizes na forma mencionados acima. O escritor é observado pela câmera, ao longo de todo um filme, como um louco. E isso no sentido mais simples possível. Não há interesse em aderir ao mundo do poeta, de fazer sentir suas mais diversas experiências formadoras - a vontade é de retratá-lo sob o filtro sem graça do bom gosto: observar, com certa distância, as excentricidades do louco. Vou além e digo que parte dessa "excentricidade" é simplesmente a bissexualidade de Limonov, filmada por Serebrennikov da mesma maneira que as tentativas de suicídio do escritor. Não acho que fidelidade seja necessariamente dever de nenhum filme baseado em livro (e esse filme, em particular, é baseado na biografia escrita por Carrère), mas é interessante ler o relato do próprio Eddie sobre sua primeira relação homossexual (com o marginal Chris) e comparar com a cena do filme - a segunda parece, no mínimo, reacionária. Se é pedir demais um filme que ao menos tente ser tão radical quanto o poeta na forma (e talvez seja), é esquisito que o filme nem queira confrontar Limonov no seu pior (como a cinebiografia de Trump faz, por exemplo). O filme critica o egocentrismo de Limonov, coloca em jogo seu desejo intenso por ser reconhecido, desde que de acordo com suas próprias regras... e para por aí. No final, nada permanece além de certa frieza acadêmica e a lembrança vaga de alguns momentos mais fortes espalhados.
 

 

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