A pandemia (principalmente em 2021, o segundo ano) afetou bastante o meu entusiasmo (físico, inclusive) para assistir a filmes, confesso. Alguns pontos altos inéditos do ano que passou - o documentário gigante Get Back, o poderoso conto medieval Green Knight, o elegante French Dispatch. Conheci coisas legais na faculdade também, mas continuo atrasado nos grandes lançamentos de Cannes e Veneza (o novo Apichatpong, o novo Joachim Trier, o novo Hamaguchi) e na minha lista pessoal. Vou me esforçar para correr atrás do prejuízo, com calma. Spencer foi lançado essa semana aqui perto, devo ver logo mais.
Nessas últimas semanas, ainda cansativas e desanimadas, em preparação para ver Benedetta (2021), assisti a Showgirls (1995), do Paul Verhoeven. Curti bastante, o roteiro é bem lapidado. A reputação terrível do filme é injusta - Verhoeven é conhecido e duramente criticado por seus excessos, mas as escolhas controversas (em forma e conteúdo - sempre indissociáveis - nas ações dos personagens, na estética, no sexo) cumprem um propósito temático bem definido (crítica do sistema de vida e trabalho americano que transforma todos em manipuladores e que por baixo de camadas de hipocrisia encoraja violências e imoralidade). Fico feliz que hoje em dia muitos reconheçam isso. Foi uma das experiências mais divertidas e enérgicas que tive recentemente. Benedetta, apesar da proposta chocante e ardente (a cena erótica envolvendo uma estátua da Virgem Maria dominou todas as manchetes sobre o filme), vai numa direção diferente, poderosa nas suas sutilezas e que faz (surpreendentemente) pouco caso de sua própria heresia. É uma fase distinta na carreira do Verhoeven, que lembra mais Elle (2016). Até os créditos iniciais são parecidos.
Benedetta é um romance tórrido entre a mesma e a noviça Bartolomea durante a crise de peste bubônica na Itália (paralelos com a pandemia de coronavírus serão inevitáveis). Benedetta sofre com visões que borram religião e desejo sexual. É baseado em pesquisas da acadêmica Judith C Brown, autora de Immodest Acts. O filme foge de choques baratos, preferindo focar nas sutilezas morais dos personagens, nas alucinações sexuais-religiosas de Benedetta e nos mistérios acerca da santidade ou não da protagonista. Pode parecer engraçado falar de sutilezas e cinzas num filme em que Jesus aparece para decapitar umas cobras com um cajado, mas aqui vamos nós.
Desde o início, as visões que acometem Benedetta já revelam uma interpretação mais carnal da relação Jesus-freira. Aos poucos, enquanto vai se entregando a um relacionamento lésbico com a noviça Bartolomea, Benedetta tem visões cada vez mais viscerais. Quando estigmas aparecem na devota freira após uma das visões (na tradição católica, estigmas são materialização em uma pessoa santa dos ferimentos de Cristo na cruz) ela passa a ser temida, nos dois sentidos, ganhando poder na cidade de Pescia. Não se sabe ao certo se os estigmas são verdadeiramente divinos, se Benedetta cometeu automutilação durante seus períodos de transe, se os ferimentos foram feitos conscientemente ou se todas essas possibilidades podem estar corretas e se misturar, até certo ponto, ao longo do filme.
Essas dúvidas são todas propositais, equilibradas cuidadosamente por Verhoeven. Há, por um breve segundo, uma aparência de resposta. Benedetta, no final do filme, encena (forja) de propósito mais um incidente de estigma, mas seu diálogo de perdão com Bartolomea, alguns segundos antes ("Não se preocupe, era preciso que eu fosse traída"), aproximando-a de Jesus, gera perguntas: mesmo encenando, Benedetta acredita no seu próprio caráter divino? Sua fala messiânica com Bartolomea, sua companheira mais íntima, é uma invenção consciente, na má fé? Essa cena revela o modus operandi de Benedetta como manipuladora no filme inteiro, é a culminação de um desvio psíquico, ou propositalmente aproxima encenação humana e atos divinos? Onde o livramento da cidade de Pescia da peste bubônica entra nessa equação? A beleza do filme está aí, nesses questionamentos colocados.
A Igreja é representada como cética, quase reduzida a seus ritos comerciais, nem pretensão de ilusão, de mágica visual há. Uma noviça diz a sua mãe (e Madre Superiora, interpretada por uma grande Charlotte Rampling) que não sabe se acredita em milagres, sem nenhuma repreensão. O padre só se interessa pelos estigmas de Benedetta como uma possibilidade de aumentar seu poder. A abadessa confessa estar no convento por comodismo. Eles não são cegos pela fé - esse papel pode ser reservado quase exclusivamente a Benedetta. As atrocidades cometidas durante o julgamento quase não têm justificativa. O filme, assim como não abraça choques baratos, não faz condenações fáceis, convencionais. O olhar sobre a religião na época é expansivo, brutalmente severo quando deve ser (na tortura) mas nunca gratuito - lembrando que as cenas mais provocativas, como a da estátua, não são exaltadas pela própria câmera. De novo, um filme de sutilezas e equilíbrios.
Pena que há uma certa monotonia que permeia o filme. No ritmo e na decupagem. Enquanto eu aprecio que certas provocações não foram dramatizadas ao extremo pela câmera, talvez trazer mais frieza para o convento (com menos música, por exemplo) e mais dramaticidade cênica, visual, nas cenas alucinatórias ou divinas fosse uma boa escolha. De cena pra cena, tudo acaba ficando mais do mesmo - falta tensão e relaxamento. O saldo continua positivo, mas foi algo que me incomodou. Talvez eu esteja só sendo chato.
Elle (2016), que também vi recentemente, pode ser meu Verhoeven predileto até agora. Suspense psicológico com Isabelle Huppert (em ecos de Piano Teacher [2001]), também inclui Virginie Efira interpretando uma moça religiosa e uma sequência de créditos iniciais muito parecida com Bendetta. É muito bem ritmado, tenso, uma daquelas experiências completas de cinema - esse eu super recomendo.
Lulu
Mais breves notas soltas sobre Benedetta:
O relacionamento de Benedetta com Bartolomea é quase totalmente carnal. Não é, de maneira alguma, romantizado de maneira convencional, nem no fim. Escolha interessante, combina com a psiquê hiper-sexual da protagonista. Ainda sentimos pelas duas no final, com certeza.
O trabalho com atores no filme é sensacional. Virginie Efira engrossa tanto a voz quando fala por Cristo, é de dar medo. Lambert Wilson é deliciosamente arrogante - depois do Merovíngio nos Matrix (ele faz uma aparição belezinha no Resurrections também), ele foi a escolha perfeita.
Uma provocação visual interessante é o ato de despir, de revelar o seio. Ato maternal e sexual, o contato da pequena Benedetta com o seio de uma estátua da Virgem, repetido diversas vezes com Bartolomea, ganha outra conotação quando o núncio de Lambert Wilson revela feridas causadas pela peste bubônica no peito.
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