Wes Anderson retornou em 2021 com o aguardado A Crônica Francesa, primeiro live-action do diretor desde 2014 (quando foi lançado O Grande Hotel Budapeste, triunfo absoluto e queridinho pessoal do autor desse texto). Fez ainda Ilha dos Cachorros em 2018, boa animação stop-motion. Crônica sofreu atraso por conta da pandemia, e a espera valeu a pena.
O estilo do diretor é facilmente reconhecível - os elementos do quadro dispostos em simetria rígida são muito particulares, e muitos atores são recorrentes ao longo de sua filmografia (Owen Wilson está com Wes desde seu início, na versão curta de Bottle Rocket [1994]). Alguns dizem que a mesmice de suas brincadeiras visuais já encheu o saco, como se todos os seus filmes fossem iguais. Longe de ser verdade. A filmografia de Wes Anderson é uma trajetória interessantíssima, com características comuns a todos os filmes, mas que também revela uma versatilidade incomum de temas e abordagens que em forma e conteúdo vão do mais cru ao mais extravagante. Ele sabe dosar as características que o distinguem dos demais diretores, que são ao mesmo tempo seus lugares comuns, e combiná-las com as novidades e descobertas que cada filme pede. Sempre há algum avanço, algum aspecto inédito em seus filmes, no tema e na estética.
Assim, combinando sua rigidez simétrica e momentos íntimos de discussão familiar com grandes aventuras e comédia ácida na escala que cada história pede, Wes navega por diferentes gêneros, referências artísticas e países. Aborda ao longo de seus filmes o sistema escolar americano, viagens religiosas, incesto, adoção, meia idade, história da arte, infância, imprensa. Cada um dos filmes tem um grau diferente de espetáculo visual, de mergulho no tema central e de humor.
A Crônica Francesa é um passo importante na evolução da obra do diretor. É seu filme mais elegante, mais erótico. O filme que mais se delicia no prazer das cores (e do P&B). Não poderia ser mais diferente do estilo seco de Bottle Rocket (1996). Grande Hotel é até próximo, mas é mais lúdico e menos sensual, mais aventuresco e menos interessado nas silhuetas e poses. Os desenhos da mise-en-scène aqui pedem mais tempo para serem admirados. É uma experiência sensorial forte.
Wes Anderson sempre teve um carinho grande por seus atores. Dessa vez, ele demonstra esse carinho iluminando seus atores de modo a realçar a beleza de cada um, valorizando a escultura. Timothée Chalamet e Frances McDormand são o casal mais sexy de 2021, com certeza. Aí, e em outros elementos, o diretor bebe da Nouvelle Vague, referência muito bem-vinda. Descrito como uma carta de amor à imprensa, Crônica é antes disso uma carta de amor ao cinema, especificamente francês e da década de 60 (além do sempre presente Tati, em certa escala). É interessante ver Wes Anderson transformar Lyna Khoudri em Anne Wiazemsky, da Chinesa de Godard (1967), na segunda seção.
O filme é marcante também pela sua estrutura narrativa, a mais singular em um Wes Anderson até agora. Dividido em capítulos (coleção de artigos do jornal French Dispatch, comandado por Bill Murray), cada seção do filme é narrada por um jornalista (Tilda Swinton, Frances McDormand e Jeffrey Wright), e cada uma tem seu tema e seus personagens. Estratégia arriscada, já que uma desigualdade acentuada entre a qualidade das três histórias mataria o filme. Mas todas as seções são boas. A primeira é um pouco melhor do que as demais, somente (também pela elegância visual - mais presente nessa seção, estrelada por Benicio del Toro, Léa Seydoux e Adrien Brody). Inclusive, não é incomum para filmes do Wes Anderson que certas sequências menos interessantes apareçam por aí. O bom é que todas as três seções são sucintas e bem ritmadas, sem espaço para mais ou menos. O roteiro é livre no que interessa e rígido quando necessário. Uma combinação gostosa de assistir.
Sendo assim, o novo Wes Anderson alcançou e superou as altas expectativas. Não sabemos o que esperar do diretor em seu próximo filme, se o espetáculo elegante de cores vai continuar, ou se devemos esperar mais luz natural e menos esculturas. De qualquer maneira, vai ser interessante saber.
Lulu
Apêndice
Em relação às três histórias:
A primeira, narrada por Tilda Swinton (numa performance classuda e divertida), trata de um pintor-prisioneiro, interpretado por Benicio del Toro, que tem um caso com a carcereira Léa Seydoux. Adrien Brody é um mecenas sacana. É o mais sensual e engraçado dentre os capítulos do filme.
Na segunda história, Wes até se permite ao uso de câmera na mão, em uma revolta estudantil. Há bastante energia aqui, a solitária Frances McDormand é o destaque. Aqui, as referências à Nouvelle Vague são bem diretas, constroem o próprio mundo dos personagens.
A terceira história é o clímax policial protagonizado por Jeffrey Wright completo com tiroteios e uma aparição inesperada de Saoirse Ronan. Contém uma seção em animação. Achei essa a mais fraca das histórias, mas, pensando bem, o filme parou duas vezes durante essa parte no cinema (problemas técnicos). Seria bom rever.
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