Lançado em um ano decisivo para o cinema francês, figura na lista dos melhores daquele ano na Cahiers du Cinéma, junto com Mizoguchi, Godard, Hitchcock, Antonioni e Truffaut.
Le Trou é um grande filme de prisão, que prioriza o trabalho árduo, físico, dos detentos que tentam escapar. Sem trilha musical, os sons que ficam na cabeça são os das ferramentas criadas pelos prisioneiros, que se escondem por trás dos sons da reforma que ocorre no presídio. Jacques Becker faz questão de mostrar todo o processo da quebra do chão da cela com uma picareta improvisada, por exemplo, e também o esforço físico dos presos para soltar uma barra que restringe o acesso a um porão, o molde de uma chave, a construção de um pequeno espelho para vigiar os guardas no corredor, a operação de bonecos de papelão para servirem de sósias para o grupo durante a noite.
É um filme narrativamente muito direto, sem grandes contextualizações ou devaneios, no qual vários momentos de tensão são construídos pelo estabelecimento de expectativas (coisas que poderiam dar errado na fuga) que nunca são consumadas. Em um determinado momento, os detentos improvisam uma ampulheta para não perderem a noção do tempo que passam no porão do presídio. A ampulheta nunca quebra, nunca é virada antes da hora acidentalmente - tudo ocorre como o planejado. A expectativa foi plantada, e o suspense domina. Talvez a cena mais representativa do suspense do filme seja a andança de Roland e Manu pelos corredores subterrâneos da prisão - um verdadeiro labirinto. O mesmo plano, dos dois andando com tochas improvisadas em direção ao desconhecido, é repetido algumas vezes - o foco no árduo, na dificuldade da situação continua presente. Em determinado momento, guardas aparecem, seguem sua vida cotidiana, e Roland e Manu se equilibram um em cima do outro para não serem notados, atrás de uma coluna.
Além da impecável construção de tensão, o elenco (os detentos, os trabalhadores) não fica para trás, bem como a mise-en-scène que valoriza essas figuras, quase apagando o cenário monótono do presídio. Há uma construção de tensão sexual, também nunca consumada, entre o recém-chegado Claude e o veterano Manu - em uma cena essencial, Claude recebe uma evasiva de sua amante, e depois disso quase veladamente propõe uma fuga com Manu a dois: "quase poderíamos ter pego o táxi", diz ele, na cena representada pela foto acima. Após a não realização dessa vontade, Gaspard parece tomar decisões muito mais egoístas e erráticas - o final do filme é surpreendente. Completamente proposital ou não, o homoerótico é um elemento importante do filme. Em Le Trou, Becker equilibra brilhantemente erotismo, suspense, momentos mais lúdicos e momentos mais tensos.
Está disponível na MUBI e em outros locais.

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