O que faz o novo Linklater ser de certo modo refrescante é justamente um certo anacronismo - esse filme tem alguns poucos tiques estilísticos de 2024 (um visual digital bem insípido ao longo de todo o filme, por exemplo, bem como alguns atores completamente fora do tom) mas compensa com boa dramaturgia e uma liberdade na estrutura (ou dentro da estrutura) pouco comum no cenário mainstream dos últimos tempos, e que remonta às origens do cineasta - esse filme poderia muito bem ter sido realizado há uns 20 anos. Os veteranos do cinema (independente do nível de inserção no mercado Hollywoodiano - tanto os melhores corsários quanto os melhores entre os queridinhos dos executivos - esses que são espécie raríssima) muitas vezes têm se mostrado mais atentos às boas e más tendências do contemporâneo do que os jovens (ou um empoeirado como Ridley Scott) que apenas reproduzem estéticas fáceis, do senso comum ou até algorítmicas. Aqui, Linklater realiza um filme perfeitamente clássico, de roteiro correto, com uma sensibilidade cênica aguda e enérgica. O estilo direto e sem firula dessa comédia romântica policial abre margem para uma tapeçaria de escolhas narrativas e cênicas interessantes, que o diretor consegue aproveitar.
Um exemplo: uma entrevista recente de Linklater reclamando do estado infantilizado e infantilizador da cultura promovido pelos grandes estúdios viralizou entre a cinefilia, na qual ele especificamente recorta a falta de cenas de sexo como um problema social. Em Hit Man, a paixonite da moça pelo homem que ela acredita ser um assassino profissional (quando na realidade, ele é um versátil policial disfarçado se deixando levar pelo próprio personagem, e que convenceu a jovem a não matar o marido) culmina em uma longa e bem humorada sequência de encontros sexuais entre ela e o personagem de Glenn Powell. Em uma época na qual a dramaturgia parece sempre econômica demais, na qual a narrativa subjuga a sensação e na qual o encadeamento das cenas é, por consequência, dolorosamente previsível, Linklater faz questão de priorizar o prazer de cada cena e, portanto, situa quem assiste ao filme no presente - a sequência erótica acaba surpreendendo, tomando de assalto mas cativando por um longo tempo.
Conforme a trama vai se complicando e Glen Powell precisa se desdobrar mais e mais para manter o equilíbrio entre esse relacionamento casual baseado numa mentira e seu trabalho como policial disfarçado, cenas simples e bem humoradas acabam transformadas em cenas de um suspense eficiente. Novamente, situando o espectador no presente por meio de boas cenas, o desenrolar da narrativa é fortalecido. Pela primeira vez em muito tempo em um filme narrativo americano que equilibra suspense e comédia, era impossível saber o que aconteceria em seguida (e isso sem recorrer ao nonsense de The Nice Guys, por exemplo - Linklater trabalha numa escala menor mas com uma dramaturgia mais efetiva). Mais que isso, a vontade de saber o que aconteceria em seguida era grande. Repleta de detalhes, a gradual transformação do personagem de Glenn Powell (que é o próprio tema do filme, repetido em diálogos várias e várias vezes, outro tique americano permanente) é surpreendentemente (!) sutil, acaba se tornando um detalhe fácil de se perder entre tantas reviravoltas e tanto suspense.
Muito mais bem filmado e ritmado do que os últimos ganhadores do Oscar, Hit Man é tão trabalhado e vai tão além de seus defeitos e vícios que parece deslocado, isolado, estranho. Aliás, está passando por enquanto exclusivamente nos multiplexes em São Paulo, antes de ir para a Netflix.
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