" 'Dark' foi filmado em 2013 e lançado em 2014 sob o título 'Dying of the Light'. Esse filme foi tirado de mim depois do primeiro corte do diretor, remontado, além de musicado e mixado sem minha colaboração. Eu me ofereci para revisitar o filme, cortar e mixar uma nova versão por minha conta, mas os produtores negaram. Esse corte, agora chamado de 'Dark', foi criado com o uso de DVDs de workprint. Eu não tive acesso a gravação original de alta qualidade e ao som não mixado. Eu tentei tirar vantagem dessas limitações ao criar esse novo filme. Eu estava caminhando para um estilo de montagem mais agressivo quando 'Dying of Light' foi tirado de mim, e 'Dark' representa o caminho que eu esperava seguir. 'Dark' não foi criado para ser exibido nem para ganho pessoal. É pelo registro histórico."
- Paul Schrader, no início de Dark.
Dark é um pouco diferente da maioria dos cortes de diretores. Ao longo de toda a existência de Hollywood (e do cinema, mas faço aqui um recorte menor), diversos autores mais ou menos estabelecidos tiveram seus trabalhos mais ou menos mutilados, e isso não é novidade. Mais recentemente, os produtores pioraram consideravelmente Welcome to New York, de Ferrara (2014, mesmo ano de Dying of the Light), com mudanças cinicamente descritas como pequenas e que, segundo os produtores, "não afetam a visão do diretor", que conseguiu um lançamento modesto de sua própria versão por aí. Alguns diretores, é claro, escolhem revisitar o próprio trabalho e conseguem sem muito problema - quantas versões dos filmes de Michael Mann existem por aí? Dark me interessa mais por um motivo bem específico - sua própria existência é um protesto enfático e amargo, e acaba sendo muito mais do que um corte do diretor de Dying of the Light. O filme foi montado e lançado online de maneira totalmente clandestina. Além disso, um texto no início explica a existência do projeto e acaba, sem querer, afirmando que Dark não poderia corresponder à visão original que Paul Schrader tinha em mente para Dying of the Light. Dark é algo esteticamente novo, pensado exclusivamente a partir das limitações técnicas, e apesar de ser mais próximo da direção que Schrader pretendia tomar na montagem do filme original, só poderia existir a posteriori, como uma reação rebelde. O mesmo não pode ser dito de Welcome to New York ou de Blackhat, por exemplo.
Paul Schrader sempre foi irregular. American Gigolo é uma boa fábula sobre a crueldade de Los Angeles, mas também é um suspense erótico sem suspense ou erotismo. A chamada trilogia espiritual começa muito bem com First Reformed, mas desanda nos lugares comuns de Card Counter. Master Gardener é melhor, uma boa fábula que parece sempre prenunciar algo grandioso, mas as pinceladas temáticas, apesar de ousadas, infelizmente não passam disso. Cinéfilo dedicado (poucos cineastas americanos são tão abertos em seu amor por Bresson), o que falta para Schrader às vezes é uma certa imaginação mais radical nas soluções visuais ou narrativas. Apesar disso, Schrader sempre parece curioso - sua maneira de filmar esses lugares mortos e sombrios dos Estados Unidos em seus últimos filmes, sejam hospitais, motéis de beira de estrada, casas coloniais, cassinos ou lanchonetes é simples e dolorosamente eficiente - são cenários de fábulas de fim do mundo, o sonho americano do século XX absolutamente destruído de maneira completamente evidente e sem mais artifícios além do enquadramento de Schrader e do tempo.
Dying of the Light é um caso um pouco a parte, sendo um suspense DTV sem grandes pretensões nem grandes recompensas. Nicolas Cage é o protagonista Evan Lake, agente da CIA que há muito está relegado a um papel decorativo. Infeliz, ele acaba recebendo o diagnóstico de demência, que aos poucos vai deixando-o mais confuso e temperamental. Quando surge a informação de que um terrorista importante no passado de Lake pode não estar morto (e que, como o CIA, também está ficando gradativamente mais doente), o agente passa a tentar achá-lo de maneira independente, apenas com a ajuda de um jovem.
Tudo o que tange o enredo investigativo é fraco, Schrader filma melhor do que muitos diretores de produções DTV sem enriquecer a dramaturgia das cenas o suficiente para criar uma sensação de suspense mais forte. Todos os atores estão corretos, mas Nicolas Cage brilha como Evan Lake. Há algo de profundamente vulnerável nas cenas na qual o agente se dá conta de sua falta de memória cada vez mais grave e a única saída parece ser uma explosão temperamental. Há algo de tocante, também, nos encontros entre ele e o terrorista, que se encontra fisicamente debilitado mas mentalmente são. Outra subtrama espertinha é o disfarce de Evan Lake, que se passa por um médico romeno para chegar ao terrorista, tornando-se, portanto, outra pessoa, algo que sua doença já está fazendo por ele. Alguns miolos desinteressantes não acabam totalmente com o filme, cujas forças acabam triunfando.
O anti-herói solitário é um tema recorrente dos filmes roteirizados e dirigidos por Schrader. A descrença nas instituições traz a necessidade de uma bússola moral confiável para o protagonista traumatizado. O final ridículo, obviamente uma decisão dos produtores, parece contradizer tudo isso fundamentalmente, pois repete um discurso motivacional decorativo do protagonista em um evento de cadetes da CIA, instituição descredibilizada ao longo de todo o resto do filme.
Dark, porém, é completamente diferente. Há algumas escolhas que parecem ter sido tomadas por Schrader desde o início, como a aproximação mais clara entre os agentes da CIA e os próprios terroristas, o que é inexistente no filme de 2014. Porém, a narrativa é tão rarefeita, reduzida ao essencial, e a imagem (já em baixa resolução) é destruída tantas vezes por Schrader, que é como se a degradação mental de Evan Lake estivesse impressa no filme o tempo todo.
O som e a imagem muitas vezes (e principalmente nas cenas em que Evan tem um episódio demente) estão fora de sincronia, alguns planos tem o sentido invertido artificialmente e, assim, personagens trocam de lugar em relação ao eixo, sobreposições insanas de cor e imagem criam todo um mosaico que eleva esse filme do rascunho de algo impossível de ser realizado completamente a outra coisa, muito mais interessante e fugidia, inapreensível.
Schrader corta todo o último ato de Dying of the Light, uma conclusão convencional de qualquer filme DTV sem muito interesse, e opta para um caminho totalmente radical. No primeiro confronto direto entre Lake e o terrorista, no qual Lake sofre um episódio demente, Schrader destrói completamente a imagem e cria uma alucinação visual sombria completamente experimental. Vemos imagens de guerra e do começo do filme sobrepostas em camadas cada vez mais abstratas até que, de maneira explosiva, a morte é sugerida e encerra o filme abruptamente, sem qualquer conclusão além disso. É belo e cruel.

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