quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Sobre a ausência de texturas

     No número 10 da revista Paisà, em 2007, Filipe Furtado escreve sobre O Gângster, lançamento daquele ano dirigido pelo prolífico Ridley Scott:

"O que torna o trabalho de Fincher grande é exatamente aquilo que está além da compreensão de um falsário como Scott. Chamemos de textura. O preenchimento de cada cena com detalhes e gestos que aos poucos acumulem um mundo. O Gângster está preocupado apenas em como fazer valer a sua grandiloquência."

    As discussões sobre a perspectiva de desaparecimento (a desaprendizagem) geral de algumas potencialidades no cinema tem sido pauta nas discussões críticas desde antes dos anos 70 na França. Godard, ao ministrar um curso, notou o fracasso dos alunos em replicar alguns planos de filmes canônicos, ângulos de Eisenstein. A supremacia televisiva esmiuçada tão bem por Serge Daney impôs ao mundo todo uma outra relação com a imagem, assim como a internet fez e continua fazendo, anos depois. Disso já sabemos. Muito por conta das reconfigurações do mercado na era da internet, as tendências estéticas simplesmente ruins do cinema americano hegemônico parecem estar num processo de afunilamento e de padronização ainda maior com, por exemplo, a grife da A24. Essas tendências estéticas pobres e muito repetidas são inúmeras e vêm de muitos anos atrás, assim como as possíveis definições do que exatamente é mise-en-scène. Muito já foi dito sobre o empobrecimento da linguagem cinematográfica e o movimento do capitalismo do século XXI no plano sistêmico e individual, bem como as possíveis relações a serem traçadas dessas duas coisas. Pretendo falar disso até certo ponto, pois considero o assunto ainda relevante e passível de germinar algumas reflexões materiais e específicas, apesar da repetição do tema ser análoga à repetição dessas tendências estéticas que condeno (continua mais interessante, para mim, do que as discussões de caráter exclusivamente representativo sobre cinema, algo que é mais regra do que exceção). 

    Foco em um exemplo específico (americano), atual (um lançamento de 2024) e didático de como um certo cinema hegemônico continua caindo em certos lugares comuns (e as consequências e motivos disso, sempre em retroalimentação) para falar de problemas que sempre existiram mas que, agora em processo de afunilamento, revelam algo sobre o mundo do agora. Trata-se também de um gesto terapêutico (como todo filme é), de uma tentativa de vomitar de uma vez por todas algumas neuroses que venho carregando a respeito do cinema norteamericano para não precisar mais elas na maioria dos textos.

    Meus sentimentos por Longlegs (dirigido por Oz Perkins) são muito bem resumidos pela citação de Filipe Furtado que inicia esse texto. É possível dizer que o problema dos dois filmes é o mesmo, que Longlegs se aprofunda como sobre areia movediça em todos os problemas já existentes em O Gangster e em grande parte dos filmes americanos, só que elevados a décima potência. O filme parece girar muito em torno do próprio esqueleto narrativo, em torno dos mais simples acontecimentos filmados da maneira mais simples possível, com o quadro preenchido da maneira mais rasa possível. No mundo de Longlegs (e faço essa ressalva mais uma vez, no mundo da maioria dos blockbusters americanos, como Beau is Afraid [Aster], Napoleão [Scott, novamente], The Killer [Fincher {até tu?}], Oppenheimer [Nolan]) não há textura dramatúrgica. Há atmosfera, há um esforço "competente" de composição de cenários creepy razoavelmente eficiente, mas o filme parece não intencionalmente vazio.  

    Comparações marqueteiras foram feitas entre Longlegs e O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme, apesar das diferenças serem muito mais evidentes do que as semelhanças (tirando, é claro, o fator serial killer, suficiente na opinião dos marqueteiros para justificar a infantil analogia). Se O Silêncio dos Inocentes transmite com sucesso um clima de desolação total, de solidão da protagonista feminina frente àquele mundo hostil da sua própria corporação, é porque esse mundo é construído, vemos Jodie Foster interagir com espaços e pessoas que não necessariamente "avançam a narrativa" (termo deplorável e popularizado no comentário de cultura pop na internet), mas vão construindo sutilmente o tema e o clima do filme - lembro do diretor do hospital psiquiátrico, dos diversos outros agentes do FBI, dos hostis policiais que devoram Clarice com o olhar. 

    Além disso, Jodie Foster parece uma pessoa. A protagonista de Longlegs, com seus tiques associais que remetem ao ridículo Joaquin Phoenix de Beau Is Afraid (o que já considero um sintoma por si só: protagonistas fechados em si mesmos em filmes fechados em si mesmos), nunca age como um ser humano, e todos que ela encontra pelo caminho tem um propósito utilitário, são desde o começo apresentado como peças sem qualquer caracterização no tabuleiro narrativo genérico montado por Demme (o chefe e sua família, a mãe, os colegas do FBI).  Se, de fato, Silêncio dos Inocentes foi uma inspiração para Longlegs, fica claro que Perkins não entende que são os gestos mais sutis que fazem com que o filme de Demme funcione. Como Filipe Furtado também diz sobre O Gângster, é como se esses filmes copiassem as partes menos interessantes dos filmes que os inspiraram, almejam um certo clima sem se atentar às caracterizações menores que ajudam a compor esse clima.

   Quais as causas desse engessamento generalizado? Há, com certeza, alguma parcela de culpa a ser depositada nos manuais de roteiro, na visão tecnicista de cinema dos norteamericanos, na ausência de atenção real ao repertório cinematográfico (Rivette apontou que o cinema parece começar nos anos 80 para muitos cineastas), no desinteresse de fugir de um certo lugar comum de prestígio (muito moldado nesse momento pela tal A24)... mas, no fim das contas (e levando em conta que essa tendência tem atingido diretores que antes não caíam nessa, como o Fincher), a textura de que fala Filipe Furtado, essas sutilezas dramatúrgicas que ajudam a compor um todo estimulante (como Sopranos, uma série de TV cinéfila, fez muito bem) e que contém alguma verdade para além da estetização barata das redes sociais, é a textura da vida. Assim como a protagonista de Longlegs nunca parece um ser humano minimamente funcional, o mundo na qual ela habita não parece, em momento nenhum, a vida - e não falo aqui de uma defesa de um realismo rococó ou de qualquer verossimilhança narrativa. Muito pelo contrário, o grande problema é que tudo converge para o narrativo no pior sentido possível, na completa descaracterização de qualquer elemento possivelmente interessante no quadro que seja indício de vida. 

    Não se deve subestimar nunca o poder de um pequeno gesto. O cinema, em particular, sempre foi feito deles. Na Paixão de Joana D'Arc, de Dreyer, um pequeno espasmo nos músculos da face da Santa é capaz de levar aos prantos. Uma série como Sopranos é mais cinematográfica, mesmo em seus episódios mais narrativos e menos bem dirigidos, do que grande parte da leva de grandes filmes desse ano justamente pelo interesse em compor um mundo a partir do acúmulo detalhes cênicos diversos. A atenção aos gestos e aos detalhes sugere alguma visão de mundo, visão de cinema. Procedimentos padronizados, de grife sugerem o contrário. Filmes que parecem ser apenas vulgatas de filmes anteriores que foram mal compreendidos são perda de tempo. Se o movimento do mundo na vai na contramão do desenvolvimento de verdadeiras e interessadas visões de mundo, se a profusão de imagens nas redes sociais estimula a velocidade cognitiva que adoece, se a padronização de produtos culturais com base em fatia de mercado estimula procedimentos rasos e repetitivos, se a narrativa está triunfando sobre a sensação de vida, se pequenos gestos são preteridos em favor de caracterizações puramente utilitárias, o bom cinema deve ir na direção contrária. Não é segredo que veteranos com Abel Ferrara são os cineastas que mais estão pensando o mundo contemporâneo em um projeto formal interessante - Zeroes and Ones é um dos muitos possíveis nortes, uma pérola, bem como Stars at Noon, de Claire Denis. Qualquer arte que vá na contramão do movimento capitalista de padronização vazia de procedimentos vulgares  e ultrapassados, que se proponha a pensar o mundo a partir dos aspectos cinematográficos que em si são antigos, mas cuja utilização pode resultar em novas estéticas que realmente abram portas, já é mais interessante a priori do que Longlegs.


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