Talvez a maior surpresa do ano (pelo menos para mim, que estava com expectativas negativas), considerando a mediocridade do filme anterior e as reações negativas desde Veneza.
Aqui está um filme que realmente entende o mundo contemporâneo (assisti-lo depois das eleições municipais em São Paulo e do abandono dos Bolsonaro em favor do Marçal por parte de milhares de eleitores é impressionante - algo similar acontece aqui). Além disso, longe de negar o primeiro filme (como o discurso no enxame das redes sacramentou como verdade absoluta), Folie à Deux dobra a aposta em toda escolha interessante dele e ainda corta tudo que não funcionou em 2019 (aí está a traição?). A profundidade tímida escondida ali, destruída por um desenrolar de acontecimentos monótono e derivativo (uma versão desinteressante de 2 filmes brilhantes do Scorsese) aqui está plenamente realizada, livre. As amarras do primeiro filme (estéticas e narrativas) não estão mais presentes e, conscientemente ou não (não importa), Phillips faz um diagnóstico do contemporâneo puramente emotivo, cinematográfico, musical. Um filme que confia mais em si mesmo, na própria autonomia, no próprio discurso, na própria câmera. A dramaturgia é mais rica, as relações dos personagens são verdadeiramente complexas (o maior exemplo é entre Arthur e os guardas, uma espécie de jogo de poder erótico de amor sincero e ódio entre um valentão e sua vítima). A narrativa do filme realmente desenrola como um tapete (unfolds), não apenas tropeça - Todd Phillips dessa vez parece interessado em aproveitar o máximo de cada cena e em levá-las para lugares muito mais inesperados. Há mais peças mais interessantes no tabuleiro (até o plot twist envolvendo Gaga supera facilmente o plot twist envolvendo o par de Fleck no filme anterior). A câmera na mão esquisita e sem rumo do primeiro Coringa também não é vista aqui - apenas em alguns flashbacks (a cena da dança no banheiro continua sendo uma das mais insuportáveis de 2019). A violência, não tão gráfica, é ainda assim muito mais brutal, gutural. Há mais tensão no retorno do Coringa para o hospital psiquiátrico onde seus algozes o aguardam do que em todo o primeiro filme.
Arthur Fleck é um narcisista, um incel ressentido e egocêntrico que escolhe conscientemente canalizar sua dor dando vida a suas fantasias violentas. Ao mesmo tempo, é uma vítima concreta de abuso físico, mental e sexual e que não aguenta mais o mundo, as instituições, a dor de existir (preferindo viver na fantasia) - como todos nós, em alguma medida. Todd Phillips não problematiza o fenômeno do primeiro filme como numa tentativa de conter danos ou se retratar, muito pelo contrário, ele vai além e faz com que a empatia do espectador por Fleck seja ainda maior (afinal, todos nós conseguimos entender a frustração que leva muitos jovens ao reacionarismo). Não há nada de fácil nesse recorte - no cenário em que nos encontramos, eu diria que essa empatia por Fleck é corajosa. Ao mesmo tempo, habilmente, ele problematiza ainda mais o fenômeno do Coringa e o aproxima da extrema direita contemporânea, que canaliza erroneamente as frustrações com o mundo em uma explosão patética e egóica (narcisista) de violência (a personagem de Gaga, uma riquinha narcísica meio Garota Manson que se apaixona pelo Coringa por essa suposta rebeldia anti-sistema [que nada mais é que gozo doentio], e que depois perde o interesse quando ele renega a fantasia, exemplifica muito bem tudo isso). O filme caminha muito bem, sem medo algum, entre a identificação do espectador com Fleck e sua queda vertiginosa na fantasia violenta (o incel pode muito bem continuar incel mesmo depois de transar). Essa modulação é louvável - é uma visão tão interessante sobre o mundo contemporâneo e o poder da fantasia quanto Trap, de Shyamalan. Há uma profundidade sincera e doída conforme Arthur Fleck percebe que, mais do que sustentar sua fantasia, ele quer apenas viver - há espaço para alguma redenção?
As sequências musicais são extravagantes no nível certo, o peso do mundo continua sempre presente, mas há muito mais diversão e dor aqui do que na imensa maioria dos filmes de quadrinhos de todo o século. Uma piada recorrente sobre um telefilme feito a partir dos eventos de Coringa 1 é o melhor exemplo de um humor muito bem trabalhado, muito presente ao longo do filme. Ao mesmo tempo, os depoimentos no tribunal que acabam desvelando (sem muito didatismo, um pecado que algumas cenas do filme cometem, principalmente a última de Gaga) o Coringa de maneira destruidora, emocionante. A recusa da psicologização barata em favor da performance (aqui, Arthur tenta forçar a risada tão natural do primeiro filme) é muito bem-vinda. A cena de sexo, uma das melhores cenas já feitas em qualquer filme baseado em quadrinhos, solidifica ainda mais superioridade de Folie à Deux em relação a muito do que está posto aí.
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